Culpa de quê?
Quinta-feira passada fui golpeada por uma culpa inédita. E essa responsabilidade recém-adquirida e novinha em folha passou a pesar como uma bigorna nos meus ombros no instante exato em que foi descoberta: ao me afastar de pessoas que me fazem sofrer, posso, como consequência, fazê-las sofrer também. “Mas, espera aí, a intenção não era essa! Só queria um tempo, só não queria esse nó no estômago! Não era pra fazer ninguém sofrer!” E culpa. Tome culpa!
Sendo eu budista, fico pensando no que diria Nietzsche. Queria poder empregar todos os meus esforços na manutenção da minha “boa alma cristã”, lustrar minha vaidade e me sentir superior, mas nessa inundação de responsabilidades isso não tem espaço. Minha culpa é, em boa parte, uma grande covardia. Ou falta de coragem, pra pegar leve comigo mesma.
No posto de gasolina, com o combustível errado já no tanque, a falta de reação não foi bondade. Até passou pela cabeça que a frentista levaria um belo esporro e, muito provavelmente, seria obrigada a pagar pelo erro, mas a verdade é que não sei brigar. Em situações assim, só consigo rir. Não me sinto irritada ou puta, não sinto o sangue subir, não penso que o outro quer me foder, não sinto raiva, nada. É uma ausência completa de impulso. Não sou boa, sou idiota.
A comida vem errada no restaurante? Eu como. “Ah, já está pronta mesmo, não vou jogar fora”. O assunto na mesa do café me incomoda? Fico quieta. “Se está todo mundo animado, menos eu, deixa o povo falar”. A moça da ONG está insistindo pela quinta vez na ajuda? Eu ajudo. “Se estão forçando a barra assim, devem estar precisando mesmo”. Eu não sou boa. Eu sou, definitivamente, idiota.
E essa não-reação traz as culpas e responsabilidades. A frentista, a comida que vai para o lixo, as criancinhas da ONG… E a lista de culpas e responsabilidades que não me pertencem só cresce. É uma festa que parecia uma ótima ideia até alguém ficar chateado, é a ausência num evento para evitar que a minha tristeza contamine a felicidade alheia, é a distância em vez do confronto, o silêncio em vez do questionamento, a culpa.
Tomo para mim dores que não me pertencem e tudo bem que não tenha com quem dividir as minhas. “Nem todo mundo sabe lidar, né? É assim mesmo!”. Aceito a ausência, aceito o “você não é problema meu”, aceito a falta de compromisso, aceito a piada, aceito tudo. Aceito, porque não sei não-aceitar. Aceito, porque o não-aceitar me obriga a pensar numa resposta que não é naturalmente minha. Aceito, porque nem sempre consigo seguir o script do que devo fazer, do que é certo, do assertivo. Só aceito.
E que venha a próxima culpa! Culpa de quê?