A cultura da exposição e do lacre ainda vai acabar com a gente.

Perdemos muito tempo em embates pessoais e nos dividimos até no que deveria nos unir.

Se torna cada vez mais comum no meio feminista na internet a cultura do lacre: é basicamente dar uma resposta tão boa pra imobilizar qualquer reação do seu “oponente”, que — se pensarmos bem — finda uma possibilidade de diálogo e portanto a construção de qualquer caminho que seja pra resolver a questão.

Daí se seguem textos e mais textos sobre o lacre, sobre quem expôs e sobre quem foi exposto, sobre o assunto, e formam-se os times: quem tá do lado de quem e por aí vai. O assunto rende um ou dois dias (mas os prints estão bem guardadinhos pra serem usados contra qualquer um dos envolvidos no futuro) e daí vem um novo assunto e tudo começa de novo.

O que se constrói com isso? Sinceramente não sei.

A gente sabe que não existe fechamento nas pautas feministas, existem concordâncias, aproximações e afastamentos. A gente sabe disso e ainda assim cai nas garras desse amor gostoso que agora chamam de “brigas de vertentes”. E estamos caindo feito patinhas. O patriarcado se diverte enquanto, por exemplo, feministas liberais e feministas radicais brigam quanto o assunto é prostituição e a estrutura que mantém a exploração de mulheres não se mexeu nem um milímetro.

É basicamente o tipo de coisa que a gente aprende primeiro num curso de licenciatura: nunca se corrige alguém expondo o erro. Mas parece que essa máxima não serve pro feminismo de internet. Tem dias que chego a pensar que tem gente que entra na vibe feminista em busca de reconhecimento,curtidas e RTs porque quando o assunto é respeito por outras mulheres, passa longe. Mas aí repenso e prefiro acreditar que estou errada.

Não adianta pedir desculpas. Se pede desculpas logo aparece alguém pra apontar o dedo, não basta um “ok”, tem que ter “que isso nunca mais se repita” e também as que não se dão por satisfeitas e querem manter a chama acesa. Todo mundo erra, a gente tá aqui pra aprender. Tem vezes que a gente erra sem querer mesmo, fala algo sem pensar ou mesmo reproduz aquele comportamento sem perceber. Não custa dar um toque.

Bem, existe também o lado de quem arrota preconceitos e insultos e da mesma forma acredito que isso não dá aval pra exposição e linchamento virtual já que a ignorância da outra não te faz melhor ou mais inteligente. Deixar passar, ao meu ver, ainda é o melhor caminho.

No Twitter, não pode dar falar diretamente com quem errou, tem que dar RT com uma fala bem lacrativa, pra que todos os seus seguidores vejam como voc~e sabe das coisas e seu papel no mundo é achar tweets pra corrigir e assim, quem sabe, com a exposição e o puxão de orelhas público, você aprenda alguma coisa. Talvez algumas ainda não tenham percebido que o feminismo não é um movimento individual, assim, os “erros” na sua maioria também não são individuais, fazem parte de uma forma de pensar, de visões que mundo nas quais estamos inseridas e sobre as quais nos debruçamos pra tentar justamente desfazer e reaprender coisas que aprendemos e não são certas.

Então, amigas, vamos segurar os dedinhos antes de dar print e fazer aquele textão lacrativo. Vamos nos perguntar o que a gente ganha com isso? Isso é didático? É proveitoso? Você acha que vale a pena dar um toque na pessoa que escreveu?

E isso é um exercício diário mesmo, segurar a vontade de dar RT, de compartilhar AQUELE texto ou comentar assumindo um lado da briga. Já caí nessa armadilha algumas vezes, já entrei em discussão, já lacrei e fui lacrada. Isso consome tempo e energia que a gente pode empregar em outras coisas. É um exercício diário se manter longe disso, se manter longe de certos grupos que são extremamente tóxicos, depois que você entra na panela é difícil sair.


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