A imagem de Marcela (e o que você tem a ver com isso).

Vejo muita gente falando que pouco importa Marcela, o que ela veste e o que ela faz, que devemos focar no que acontece na vida política do país e deixar a agora primeira dama pra lá. Mas e se eu disser que Marcela é peça fundamental nesse novo governo? Se eu disser que ela é um meio de comunicação? Ela é uma forma sutil e eficaz de passar uma mensagem para o público.

A figura de Marcela vem sendo alinhavada junto com o processo que levou Temer ao poder. Vocês se lembram bem do “bela, recatada e do lar”, né? Isso já foi bem discutido, é uma mensagem clara: mulher não foi feita pra ser presidenta, pra mandar, foi feita pra ser primeira dama, cumprindo tarefas sociais e assim exercendo seu papel maternal, de cuidadora dos mais necessitados.

Até arrisco dizer que suas aparições públicas são finamente calculadas. O que ela vai vestir, como deve se portar. Nunca dá entrevistas. Quando se trata de compor uma imagem, até o corte de cabelo, cor das unhas, se tornam peças do processo.

A escolha do vestido branco e simples não é mera coincidência. Ela não escolheu a roupa no dia anterior ou abriu o guarda roupa de manhã e escolheu a primeira peça que viu. O branco simboliza muito. É o contrário de Dilma, sempre com peças de cores fortes e estampas. É o branco da candura.

Nos comunicamos pelo que vestimos. Nossas roupas são uma forma de mostrar uma mensagem. Vejam bem, não estou dizendo que a roupa te define, que dá o direito de julgarem quem você é pela roupa. Vivemos em um código social de vestimentas. Em princípio, não se vai trabalhar com um vestido de festa. Da mesma forma que usamos uniforme na escola ou em determinadas funções, que profissionais da saúde usam branco, por exemplo. A moda é uma forma de expressão. Não é só uma questão de estilo, tendência ou mercado. Desde que o mundo é mundo a roupa é uma forma de distinção, serve pra diferenciar além de tudo classes sociais.

Parece que a imagem de Marcela está sendo forjada pra isso, é uma pessoa capaz de usar um simples vestido branco e continuar linda. Combina com Temer deixando se fotografar comprando sapatos na China. O estilo “não gosto de ostentar” vem chegando com força. São gente como a gente. Marcela é a imagem da primeira dama que todos querem, a imagem da “mulher perfeita”, idealizada. Suas roupas, maquiagem e comportamento refletem o novo governo: clean, prático mas acima de tudo conservador (que é o que o brasileiro gosta mesmo).

Mas por isso vamos hostilizar Marcela? Marcela é mais uma peça nesse tabuleiro. Muito se fala sobre seu casamento (e não vou entrar aqui no mérito da diferença de idade), sua história de vida, como uma moça que muito jovem passou das mãos do pai para as mãos do marido. Ou como uma oportunidade que viu no homem mais velho a chance de ter uma vida de luxo, enfim. Não nos cabe julgamentos — e essa parte acredito que todas as feministas ou as que respeitam minimamente outras mulheres, que sabem que mulheres são peças de barganha e as mais abastadas são sempre incentivadas a buscar sempre mais status como se isso fosse seu caminho natural, sabem muito bem. Não estou dizendo que mulheres estejam acima do certo e do errado, estou dizendo que isso não nos dá liberdade para ofensas e conclusões.

Marcela está aí pra ser um exemplo: na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos, enquanto seu marido era vaiado depois de discursar três palavras e dar de costas para o público, Marcela o aplaudia efusivamente. Isso diz muito sobre como é uma mulher devotada ao marido e que o apóia em qualquer situação.

Então, observem bem o discurso através de Marcela, que sem dar uma entrevista fala mais sobre o novo governo que você pode imaginar.