Amor de mãe tem limites?

Ainda algumas reflexões sobre o “Desafio da Maternidade” e seus desdobramentos. Surgem relatos de mães indo contra a corrente do discurso de realização pela maternidade, sobre ser a melhor mãe do mundo e como “ser mãe” não pode ser generalizado ao ponto de apagar a individualidade da mulher.

Vi muitas mães postando desabafos sobre o que é de fato ser mãe pra elas. Que não é esse “mar de rosas”, e isso que acredito que todos já saibam (ou não?), e que pra algumas mulheres a maternidade, as obrigações cotidianas e cobranças são pesadas demais. O que não significa que essas mulheres não amem seus filhos, mas o peso do papel de “mãe” é um fardo para muitas mulheres. Amo meus filhos, odeio ser mãe.

E é interessante perceber nesses relatos a necessidade de afirmação desse amor a todo instante. Imaginem só uma mãe que abre o coração e diz que não ama seu bebê, que apenas pratica as obrigações legais de um responsável por um menor de idade? Mas é bem isso que as pessoas pensam quando você diz que ama seu filho mas detesta ter que abrir mão da faculdade por não ter com quem deixá-lo. Imaginem só se essa mesma mãe diz que ama seu filho mas detesta não poder sair com os amigos por ter uma criança pequena. No mínimo vão dizer que nem devia ter parido. Os desejos e necessidades de uma mãe desaparecem, são completamente apagados.

A cobrança é intensa e feita desde a mais tenra idade. O que é brincar de bonecas (e cuidar bem delas) senão uma preparação para a maternidade e o mundo doméstico? A boa mãe é aquela que nega sua própria existência em prol dos filhos, que se sacrifica e que, sobretudo, se vira sozinha, sem depender de ninguém pra nada, que mãezona! Livra o pai, a família e toda a sociedade e assume sozinha a responsabilidade pela sua cria.

Considerem as diversas realidades, abrir mão do que faz de melhor, trabalhar, estudar, dormir, se alimentar, pra cuidar sozinha de uma criança e ainda ouvir “ninguém mandou abrir as pernas, agora tem que se virar” e mesmo fazendo seu melhor nada nunca é suficiente pra aplacar o castigo que é ser mãe sem um companheiro - sim, pra sociedade é o preço que se paga pelo erro da não prevenção - que obviamente é de responsabilidade da mulher.

Chega a ser engraçado observar a reação dos meus alunos quando digo que o amor materno também é construído, não é um processo natural que começa no momento do positivo no teste de gravidez. Uma das maiores angústias pra quem se vê grávida é “será que vou amar essa criança?”, mesmo que isso não seja externalizado. É diferente de um instinto de preservação da espécie - que também temos - e por vezes me pego pensando o que será esse “instinto materno”, isso existe? Se sim, até onde será que isso vai? É acordar antes do bebê chorar? É sentir o que o bebê sente? Ou será que hoje isso foi apropriado como um discurso de naturalização do amor materno?

Mães e filhos são pessoas diferentes. Essa diferença tende a parecer menor na infância mas com passar dos anos e com a formação e afirmação de uma personalidade nada garante que o amor seja mantido. Mas ser mulher é ouvir desde muito cedo que uma mãe supera tudo, aceita tudo, é papel da mãe ficar do lado do seu filho em qualquer situação. Um exemplo disso é ver a expressão de mulheres já cansadas de serem culpabilizadas pelos erros dos seus filhos já adultos quando indagadas sobre seu apoio e amor pelo filho só responde com resignação “é meu filho, né”.

Não, amor não se mede. Muito menos se mede o que é ser uma boa mãe. As mães são aquilo que podem ser. O amor não pode ser uma obrigação e uma forma de aprisionamento e anulação. Não são seres superiores. Muito menos se mede esse amor externalizando, tornando público e muito menos ainda aceitando desafios de correntes na internet.


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