E quem lava as fraldas de pano?

Dias desses circulou uma matéria por aí sobre a mulher de um cantor famoso que optou por usar fraldas de pano no bebê, pois as descartáveis são “péssimas”, segundo ela.

Bom, ninguém tá aqui pra negar que fraldas descartáveis são bem ruins pro meio ambiente. São mesmo. Nem vou entrar na discussão do gasto de água e produtos químicos pra lavar fraldas de pano. Se são fraldas convencionais, mais modernas, enfim.

Eu fiquei aqui pensando com meus botões e até falei alguma coisa sobre isso no Twitter. Recebi várias respostas, desde que a mãe estava certa, que não entendiam a razão das críticas, que ela não deveria ser criticada só porque é rica (risos nervosos), que quem quer colaborar com a preservação do meio ambiente arruma um jeito de resto tudo é desculpa e também que ligou o botão do foda-se e vamos é usar fralda descartável que se dane o lixo.

Tem opções pra todos os gostos, as tradicionais de pano, tem as mais moderninhas que parecem aquelas antigas “calças plásticas”. São duráveis, mas não são baratinhas. É um investimento. O meu desejo é que um dia todas as mães possam fazer suas escolhas a partir de informações sobre assunto (quantas mães tem essa consciência ecológica que tanto cobram?) e além de suas possibilidades financeiras.

Usar fralda de pano pode ser um privilégio ou um castigo, né? Pra mulher que conta com uma estrutura que permita que ela organize seu tempo empregado no cuidado com os filhos e demais tarefas é um prazer contribuir com a diminuição do lixo produzido, etc. Pras mulheres que não contam com essa estrutura, por vezes nem água encanada tem, aquela pilha de fraldas sujas é mais uma tarefa a ser feita além daquelas que ela já precisa dar conta sozinha.

“Usa quem quer”. Infelizmente não é tão simples assim. Escolhas são condicionadas por vários motivos, muitas vezes independem da vontade. Vontade de usar fraldas de pano, dessas mais modernas, tenho sim. Possibilidade de usar de fato: muito pequena. Dependo de outras pessoas pra cuidar dos meus filhos enquanto trabalho e propor limpar cocô de fralda antes de colocar de molho ou não máquina não está entre os pedidos pra quem já está fazendo o favor de ajudar, entende? Agora pense em uma mãe que depende que seu bebê fique na creche na maior parte do dia. Poderia usar no tempo que estou em casa com eles? Poderia. É botar na balança se vou cuidar de outras tarefas, das crianças, de mim, ou mesmo fazer algo que, pelo visto, é uma grande ofensa pra sociedade quando se trata de mães, que é DESCANSAR.

Fralda descartável é ruim? É sim. Mas por favor, não jogue mais um responsabilidade nas costas de mães que gastam seus caraminguás pra comprar um pacotinho de fraldas e assim tentar aliviar um pouco a carga de trabalho que já é bem pesada. É meio cruel, sabe?

“Ah, mas tem fralda ecológica que nem dá trabalho pra lavar”. Sim, seria ótimo se essas fraldas fossem acessíveis pra todas mães, se popularizassem, mas hoje o que temos é essa oferta apenas pra uma pequena parte das mães, levando em conta condição econômica, informação, etc. Grande parte usa mesmo aquelas fraldas tipo uma gaze um pouco mais encorpada com a boa e velha calça plástica, que demanda trocas mais frequentes e volta e meia deixam a criança “assada” pelo contato prolongado com fezes e urina. Então quando a gente chega nesse ponto da discussão, estamos a um passo de uma solução bem classista que não dá conta da realidade de boa parte da população brasileira.

O que vem na mente nessa hora é que aquele seu cafezinho em cápsulas pode ficar tranquilo, vamos mostrar como é bom voltar pra fralda de pano e assim aliviar um pouco nosso peso na consciência de todo lixo que lançamos no mundo.

Por trás do que parece uma mera discussão sobre escolha do melhor pra si surgem questões muito mais amplas.

Só queria deixar aqui algumas questões e sair correndo:

  • pais são questionados sobre que tipo de fralda vão optar por usar nos seus bebês? São cobrados por isso? Entendem como lá no fundo isso continua sendo mais uma questão sobre o trabalho invisível das mulheres?
  • o intenso consumo que se constrói sobre os bebês com uma centena de coisas desnecessárias, isso não é tão prejudicial quanto as fraldas descartáveis?
  • Vamos pensar em alternativas menos poluentes que caibam no bolso e com a mesma praticidade?