Ninguém é obrigada a ser feminista.

Volta e meia torna a aparecer nas redes sociais a ex-ativista do Femen que agora é atrelada aos conservadores e fez como objetivo de vida desmascarar o feminismo. Em uma busca rápida, a gente encontra centenas de páginas no Facebook contra o feminismo, muitas feitas e administradas por mulheres. O exemplo da militante conservadora ex-ativista é algo completamente absurdo, é uma mudança tão radical que é até difícil conceber mas e as mulheres ~normais que militam contra o feminismo todos os dias?

Aí a gente fica meio descaralhada das ideias. Como pode uma mulher ser contra o feminismo? Como pode alguém ser contrária a ideias tão simples e racionais como por exemplo que mulheres não devem ser discriminadas por simplesmente seres mulheres? Como alguém pode achar justo que uma mulher ganhe menos que um homem desempenhando a mesma função? Como alguém pode achar normal mulheres sendo humilhadas, xingadas, humilhadas, violentadas e mortas como se fosse culpa das vítimas? Como?

Quando vemos outras mulheres assumindo posições conservadoras, xingando feministas e dedicando seu tempo a desmerecer as outras, dá sim vontade de xingar de volta, pegar pelos ombros e chacoalhar: “acorda pra vida, mulher!”. Vamos reconhecer, dá vontade sim! Mas vamos fazer isso? Obviamente não.

Por que ninguém é obrigada ser feminista. O feminismo não está aqui pra confrontar mulheres. Muito menos para generalizar todas essas mulheres em um só grupo, das ignorantes que ainda não descobriram o que é de fato o feminismo. Algumas, muitas talvez, não abracem a causa por opção mesmo, porque quando colocam na balança os benefícios são maiores que as opressões. Reina o egoísmo. Não querem, ou não conseguem, admitir seus privilégios, talvez por medo de perdê-los.

Algumas vivem tão absortas nas naturalizações diárias de dependência e violência que não conseguem perceber seus próprios sofrimentos. Acham tudo “normal” de ser mulher, faz parte.

Em muitas impera o individualismo, não conseguem ver a condição das outras, nem conseguem se colocar no lugar de outras mulheres, e classificam como falta de “força de vontade” pra mudar. “Minha avó criou 10 filhos sozinha lavando roupa pra fora”, partindo de um exemplo para dar conta de todos os casos de “coitadismo” e sem levar em conta o sofrimento da própria vó, só os resultados.

Outras levam a coisa como “isso não vai acontecer comigo”. Quando se deparam com a notícia de uma mulher agredida: “ah, se é comigo não permitiria, iria reagir”. Quando a notícia é de uma mulher estuprada: “ah, por isso não ando de madrugada”. E por aí vai. A culpa é sempre da outra, não consegue se reconhecer como igual a outras mulheres. Sempre disseram isso pra ela: “você é diferente das outras”. E ela continua acreditando.

Existe um universo de motivos pelos quais mulheres se declaram contra o feminismo, inclusive por não conhecerem o que é de fato o movimento, somente o que é dito pelo senso comum. Poderia passar o dia aqui citando todas as ideias erradas que circulam por aí sobre o feminismo. Porém não podemos pensar que esse é o único motivo, a falta de conhecimento sobre o assunto. Não podemos tratar todas essas mulheres como desinformadas, bitoladas. Muitas sabem exatamente o que defendem e defendem também por motivos diversos, como a manutenção dos próprios privilégios. Nossos esforços hercúleos vão fazer com que mudem de ideia? Esse é o nosso objetivo? Vai ser produtivo?

Taí um exemplo de um grande apanhado do senso comum mas não dá pra classificar só como ingenuidade ou ignorância, vindo de uma mulher com vários privilégios, de classe, de cor, isso diz muita coisa.

O feminismo não é, e nunca vai ser, uma unanimidade (ou pelo menos até cair todo sistema capitalista patriarcal). Temos que aprender a lidar com isso.

Como eu disse em outro texto. Elas tem meu respeito e meu silêncio. E faço minha parte para que no futuro, quem sabe, elas possam ver que estavam enganadas, que não se trata, nem nunca se tratou, da obrigação de sair mostrando o corpo — meu corpo, minhas regras — nunca se tratou de deixar de usar maquiagem ou deixar de se depilar. Nunca se tratou do que as mulheres são OBRIGADAS a fazer e sim de que mulheres não são obrigadas a nada, muito menos a levantar a bandeira do feminismo. Ademais, mulheres que vivem pra atacar outras mulheres não tem minha sororidade. Tem meu respeito, estou aqui pra quando precisarem, porém se disser que tem meu abraço estaria mentindo.

Vou contar aqui uma historinha. Uma aluna da graduação, muito jovem, se mostrava contra o aborto em qualquer ocasião. No Facebook fazia altos discursos sobre como aborto é assassinato, que a mulher que não quisesse engravidar deveria se prevenir e tudo mais que a gente já cansou de ouvir. Em um daqueles dias que a gente acorda com a pá virada, resolvi comentar um dos seus posts. Obviamente minhas explicações pouco foram úteis naquele momento e a tensão poderia até ter levado a desentendimentos sérios até que percebi que era hora de parar e quem sabe um dia aquilo tudo que eu disse faria algum sentido pra ela. Alguns meses depois começo a perceber pequenas mudanças no posicionamento dela. Por vontade própria ela buscou saber mais e hoje se considera militante do movimento feminista. Se eu mudei a forma dela pensar? Certamente não. Influenciei? Talvez muito pouco. Acho que o mais importante naquele momento foi saber o momento de parar. Talvez daí ela tenha percebido que eu não queria que ela me ouvisse a qualquer custo, que no feminismo não há coerção.

Não adianta falar pra quem não quer ouvir. O melhor é dar tempo ao tempo.

Nós não estamos aqui pra obrigar ninguém a nada. Muito menos somos portadoras da VERDADE. Não há um ranking de quem é mais ou menos feminista. As ideias são diversas e inclusive é permitido não concordar com tudo que o feminismo diz. Talvez o mais importante no feminismo seja o respeito por outras mulheres, a ajuda, o olhar carinhoso e atento aos problemas das outras, um abraço, estar disponível, respeito a liberdade de escolha. Levando isso tudo em consideração, se intitular ou não “feminista” pode até ficar em segundo plano. As ações é que contam. Vamos começar a nos questionar “o que fiz hoje por outras mulheres?” ou invés de tentar falar pra quem não quer ouvir.

Sinceramente, não adianta ser hipermegaultra letrada no feminismo teórico e na prática achar bacana entrar em grupos pra atacar antifeministas, expor essas mulheres e taxá-las de qualquer coisa. Uso sim essas ideias soltas exemplos didáticos do que o feminismo NÃO É, e o feminismo não é um campo de batalha pela razão. Esse é um dos aspectos que nos diferencia de quem levanta a bandeira da intolerância, estaremos aqui de braços abertos pra quem de fato quiser somar. Porém não considerem isso como um sinônimo de movimento ~paz e amor~ porque sabemos bem pra quem e como devemos lutar.


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