Quando morre uma mulher, todas nós morremos um pouco.

Morre um pouco da nossa esperança de dias melhores. Morre um pouco da nossa crença na justiça. Morre um pouco da nossa dignidade. Dói. É uma dor real.

Nenhuma punição na forma da lei dá conta de certos atos contra a vida de mulheres. Assassinatos com requintes de crueldade na verdade trazem signos de que essa violência não é a violência por ela mesma, ela é emblemática sobre como o mundo vê as mulheres. Não é uma vontade de matar pura e simples. É matar uma mulher e o que ela representa. É mostrar o poder dos homens sobre as mulheres. É uma punição pela sua condição de mulher.

Por isso diz-se que estupro não é sobre sexo. É sobre poder, é sobre controle e terror, é lançar sobre as mulheres seus medos mais terríveis, mostrar quem manda, colocá-las em seu lugar.

Quando falamos que vivemos num mundo em que mulheres são vistas enquanto objetos dizem que estamos exagerando. Algumas feministas dizem até que isso tira a autonomia feminina, as coloca em uma posição inferior e imutável, em uma realidade impossível de ser modificada independente de qualquer esforço.

É óbvio que mulheres possuem estratégias de ação que permitem que tenham formas de agir e mudar sua realidade. Mas vamos refletir sobre o que é ser vista sempre como um instrumento, seja pra gerar filhos, pra vender roupas, carros, fornecer sexo, etc.

Isso faz parte de um processo estrutural de desumanização das mulheres: o que permite um homem achar que pode estuprar e matar uma mulher? Quando se desumaniza, quando se “coisifica”, quando se é apenas uma peça necessária na estrutura social, é permitido aos que detém o poder fazer o que bem entendem.

Quando homens enxergam as mulheres apenas como seres que estão aí pra atender suas demandas — e isso não é uma característica apenas da nossa sociedade — mulheres continuarão morrendo das formas mais cruéis possíveis.

E daí mulheres são mortas porque se negaram a preparar a janta, porque disseram não pro assédio.

A minha questão é: será que um dia conseguiremos ser vistas como pessoas, seres humanos, que nossa existência não está aí apenas pra servir os homens, sendo descartadas por eles quando acham necessário, sem nenhum tipo de punição ou remorso por isso?