Sororidade não é obrigação.

Precisamos dar as mãos, mas e quando a outra parte não quer?

Recentemente surgiram muitos debates sobre o texto da Fernanda Torres intitulado Mulher, publicado no blog #AgoraÉQueSãoElas, do jornal Folha de S. Paulo e muitas respostas de feministas. Um ponto que me chamou a atenção nisso tudo, e que já a algum tempo pra mim é alvo de reflexão, é a palavra “sororidade”. Para o texto da Fernanda, já temos a excelente resposta da Carol Patrocinio Refém — uma resposta à Fernanda Torres. A minha questão aqui não é sobre o texto, mas sobre essa palavrinha do dicionário feminista.

A minha questão é: e se a outra parte não quer ser sua irmã, não te vê como aliada? E se quem deveria estar do seu lado está do lado do patriarcado? E se você não consegue manter um sentimento de irmandade com outras mulheres, igualmente? Isso te faz “menos feminista”?

Vamos começar com a definição bastante simples (até pra quem tá chegando entender o conceito sem muita problematização) do Glossário de termos do feminismo publicado na Revista Capitolina:

Sororidade: união poderosa e transformadora entre mulheres, que visa romper com o estigma de rivalidade. A sororidade é importante para fortalecer a ação coletiva do movimento feminista e, dessa forma, promover também o empoderamento.

Até aí facim, facim. Muito bonito até. Dá pra imaginar todas as mulheres do mundo se colocando acima de todas as diferenças, de mãos dadas contra todo e qualquer tipo de violência e opressão.

Existem muitos textos ótimos pra entender um pouquinho desse conceito além de sua definição “padrão”, como o “Afinal, o que é sororidade?”, publicado no Festival Marginal pela Graziele Rodrigues, segue um trechinho abaixo:

Sororidade é irmandade entre mulheres! Mas virou uma palavra usada como massa de manobra para proteger quem ataca outras mulheres. O que vejo é feminista puxando a “cartinha da sororidade” logo depois de ser racista, gordofóbica e/ou elitista. Elas agem de forma que machuca, que fere profundo suas irmãs e quando são confrontadas bradam por sororidade.

Tem também o texto de Verônica Martz publicado no Não Me Kahlo, Banalização do Termo Sororidade:

E aí é que entra a linda da sororidade novamente, porém não mais na pureza de seu conceito e sim como a arma silenciadora mais dolorosa de todos os tempos, que promove destruição do movimento de dentro pra fora. Porque em espaços que temos que ser contempladas por completo, nos é cobrado sentimento de irmandade com opressor — e que esteja bem entendido que o opressor a que me direciono é mulher branca, cis, hétero, de classe média/rica. Não se pode cobrar/obrigar irmandade de uma mulher negra e periférica, por uma branca rica, e nem de uma trans com uma cis, porque não se exige irmandade de oprimide com opressor. E sou muito firme em afirmar que até falta de sororidade é uma reação de oprimide, ou seja, é totalmente legítimo.

Impossível pensar em sororidade sem levar em conta esses recortes. “Ah, mas ela não é culpada por ter a visão a partir de uma classe privilegiada” porém também não sou obrigada a fingir que isso não me atinge, a agir como se isso fosse normal e aceitável, porque ao meu ver não é. Não vamos esvaziar o significado da coisa apenas por uma necessidade de dizer “minha sororidade, irmãzinha” e sair dando estrelinhas feministas quando lá no fundo isso não significa nada, não é um sentimento verdadeiro, apenas um chavão repetido como maneira de fazer parte de um clube.

Vejam bem, não ter sororidade não implica em se tornar inimiga de outras mulheres porque são diferentes, ocupam espaços diferentes, visões de mundo diferentes. É não se reconhecer enquanto “irmã”. Então não precisa forçar a barra, não se sinta obrigada a aceitar o discurso da outra que te incomoda ou que tá simplesmente errado, não precisa passar pano só porque é mulher. Acho importante frisar isso pra quem está começando a conhecer o que é o feminismo porque por vezes surge um sentimento muito estranho de “não posso discordar de outras mulheres porque precisamos de sororidade, precisamos nos unir”, mas que união é essa que só parte de um lado?

Tem o meu respeito, mas não o meu abraço. Porque diferente de quem acha que feminismo é vitimismo, consigo ir além dessa visão limitada e ver que todas nós sofremos pelo simples fato de ser mulher, inclusive a mulher que é privilegiada e que seus privilégios não permitem que veja isso (ou não, quando o bônus é maior que o ônus). Porém, infelizmente, não posso abraçar e me sentir irmã de quem não tem respeito com o sofrimento das outras, quem não tem empatia, delimita o mundo pelo seu umbigo, não se questiona sobre o que pra gente parece ser tão simples, como por exemplo “cara, como deve ser a vida dessas mulheres precisam usar transporte público, que precisam se sujeitar a trabalhos desumanos pra sustentar seus filhos?”. Não ligar pra condição de outras mulheres e colocá-las num balaio chamado “falta de iniciativa pra sair dessa situação”. Não ter respeito pelas suas lutas quase beira a falta de caráter, e aí não tem nada a ver com condição social privilegiada ou não.

Meu abraço está pras mulheres trabalhadoras, que sentem medo todos os dias quando saem pra trabalhar ainda de madrugada.

Meu abraço está pras mulheres violentadas pelo machismo todos os dias.

Pra quem vê o feminismo como vitimismo e assédio como empoderamento, meu silêncio e meus sincero desejo que um dia consiga ver que a realidade está muito além do seu umbigo.


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