Mobilidade Urbana + Sociedade do Compartilhamento + E o que Pokémon Go tem a ver com tudo isso?

Mobilidade Urbana + Sociedade do Compartilhamento + E o que Pokémon Go tem a ver com tudo isso, é = a Liberdade, muito mais Criatividade num mundo novo que nem começamos ainda a vislumbrar.

Eu ando muito a pé, e gosto. Mas nem sempre foi assim. Já fui carro-dependente várias vezes na vida, a pior delas foi quando morei na zona sul, tinha que deixar minha filha com a avó na zona norte e trabalhava na zona oeste. Um tempo que nem gosto de lembrar, porque o que eu menos tinha nesse tempo, era tempo. Todo meu tempo era gasto no trânsito e procurando lugar para parar 7 toneladas de metal.

Vale dizer que estou há 2 anos e meio sem dirigir meu carro em SP, com isso me tornei uma pessoa mais calma (imagina aí a demônia que eu era), com mais tempo (SIM!!), mais observadora e usuária dos meios de transporte público. Onde eu moro é até um pecado reclamar de metrô e de ônibus, porque é muito padrão primeiro mundo, um privilégio. Pago imposto pra isso. Mas no Brasil existe aquela mentalidade tosca de que vencer na vida é ter carro e não andar de ônibus. Só lamento por quem pensa assim. Há dois meses, decidimos vender o nosso carro que tá empoeirado na garagem e não vamos comprar outro. Ah, a minha CNH venceu e tô bem sem pressa de renová-la.

Recentemente, voltando sozinha a pé pra casa, nesse clima de calorzinho do sol com vento frio de São Paulo, me senti completamente feliz nas descidas e nas subidas das ladeiras de Perdizes. Cérebro oxigenado, livre das regras das mãos e contra-mão do trânsito, olhando todos detalhes do bairro, eu estava muito bem no meu ritmo e ainda me senti criativa. Tive uma ideia, depois tive outra ideia e mais outra. Ideias boas mesmo. Apreciei cada segundo que senti o sol, o geladinho do vento e o prazer de estar comigo mesma olhando as pessoas e as ruas enquanto me locomovia às custas de mim mesma.

Não à toa, há no mundo famosos caminhos transformadores para serem percorridos andando, observando as paisagens, encontrando pessoas pelas rotas, meditando, rezando, conversando consigo mesmo por horas. Caminhar é tão básico e tão poderoso ao mesmo tempo.

Dirigindo no trânsito a gente precisa estar atento a muitas regras, velocidade, faixas exclusivas, distância dos carros, fora comandar a máquina… E a pé você só precisa é prestar atenção nos semáforos, atravessar na faixa!! e dialogar consigo mesmo, além de gastar calorias, poder olhar mais a cidade de outro ângulo, o que faz o cérebro ficar bem espertinho.

Andar é a coisa mais natural do ser humano e faz a gente ter ideias boas, iguais aquelas que temos quando tomamos banho. Andar nos estimula a questionar as regras urbanas, os limites do direito do pedestre e dos motoristas, valorizar a acessibilidade, sentir-se mais proprietários da cidade. Por isso percebo que em países da Europa onde as pessoas andam bastante a pé, o senso de pertenciamento e de propriedade da cidade é infinitamente maior do que o nosso aqui. As pessoas convivem mais nos transportes públicos e nas ruas. As pessoas compartilham e usufruem de seus direitos de cidadão.
Afinal nesses países ninguém entra em sua capsula de metal de manhã e assim se separa ‘do resto’ todo santo dia para ir ao trabalho, desce numa garagem subterrânea e assim faz na volta, entra na cápsula e vai pra casa onde estaciona numa outra caverna chamada subsolo.

Aí ontem de tarde achei esse texto que está linkado aqui abaixo na timeline da Sylvia Gatti e quase chorei de alegria! Porque ele amarra todas as minhas conexões soltas e prova que andar é uma forma de estimular a criatividade e os pensamentos mais complexos dos filósofos. Leiam!!

http://saopaulosao.com.br/nossos-caminhos/670-andar-nos-ensina-a-desobedecer-diz-fil%C3%B3sofo-franc%C3%AAs.html

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Também tenho compartilhando carro através do Uber Pool, o que me faz uma economia considerável e ainda conheço mais pessoas que como eu deixaram a ideia egoísta e ultrapassada de usar um carro imenso somente para si, e por outros diversos motivos, topam dividir uma corrida que vai para o mesmo bairro. Nem me considero super sortuda, mas sempre tudo deu bem certo minhas viagens, basta o motorista seguir o Waze (outra maravilha da mobilidade). Conheci uma finlandesa, um moço que trabalha como headhunter, uma adolescente que vai prestar vestibular para Moda, uma senhora bem chata que foi doutrinada por mim e pela outra passageira a entender que a ciclovia é importante e é um direito do cidadão usá-la.

Há cerca de um mês e pouquinho, estive a convite da Ford Brasil num seminário muito foda em Salvador sobre mobilidade urbana. Só os pica das galáxias especialistas e acadêmicos no assunto. A empresa de Henry Ford que já mudou o mundo no século passado, hoje pretende seguir acompanhando o novo mindset da sociedade e as tendências, ainda que tenham que se transformar profundamente. A empresa olha para o futuro e sabe que o hoje não durará para sempre, e da preocupação com a sustentabilidade em alta nos anos 90, está entrando numa nova era, a de investir em ideias que valorizam o compartilhamento, a divisão e o uso consciente do carro. Porque hoje em dia carro não é status, carro é meio de transporte apenas. E carro compartilhado é um conceito muito pós-contemporâneo. Se joga gente! senão vocês vão parecer um bando de sectários do século XX e não vai ter botox e preenchimento que dê jeito numa cabeça ultrapassada.

[CORTA]

Não adianta desdenhar. Pokemon-Go vai ficar na história como a primeira experiência planetária, simultânea (ok o app demorou pra chegar aqui mas chegou) de como humanidade vai eliminar todas as fronteiras entre o que é material e o que é imaterial, porque ambos são absolutamente concretos. Realidade aumentada é realidade. Quem reclama do jogo é tipo quem reclama de BBB, zzZZZZzz pra mim, dá igual. Porque é muito lindo ver as pessoas nas calçadas, caminhando sozinhas ou em grupos, olhando pras praças, reconhecendo cenários da cidade e se reunindo nos parques, nas esquinas atrás de pegar aquelas fofuras que evoluem. E o mais maravilhoso: ver pessoas andando e andando muito. Sem falar nas aplicações geniais que essa tecnologia ainda vai nos proporcionar na arquitetura, na cultura, na saúde, no turismo, na educação…

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Tudo isso que escrevi, e que até então parece não ter nada a ver com nada, e nem tem mesmo: mobilidade urbana, compartilhamento, realidade aumentada, porque sinto que essa mistura vai resultar num mundo completamente novo, mais livre, mais criativo e diferente de tudo isso que vivenciamos até hoje.

Ainda bem porque se nós seguirmos nessa toada egoísta, materialista, e envelhecida, vamos acabar num buraco pior que o fundo do poço. Além do lixo produzido, cada vez mais nos limitaremos aos nossos mundinhos, vamos trabalhar como escravos que se acham livres mas são cativos do capitalismo mais selvagem, que é aquele que cria falsas necessidades e vamos viver para adquirir coisas que poderíamos dividir.

Por essa nova forma de viver e ver o mundo vamos ter mais tempo para o ócio, que segundo meu guru master é a única forma de ser criativo.