Como se livrar de pessoas tóxicas

Adotei uma postura que pretendo levar pra vida: manter comigo só aquilo que me faz bem.

Claro que não é tão fácil como parece à primeira vista. Sempre tem o trabalho que não nos dá retorno nenhum além do salário (quando nem isso), as pessoas com que somos obrigadas a conviver por causa das circunstâncias, enfim.

Cheguei num estágio da minha vida em que percebi que preciso de muito, muito pouco mesmo, para me sentir em paz e bem comigo mesma. E nem por ser pouco é mais simples. Até a gente se livrar de tudo o que não é essencial vai um longo processo.

Já existe muita coisa da qual não posso me livrar por não ser o que quero, ou o que gosto. Já aturo muitas situações e pessoas que preferia não aturar, se tivesse uma escolha. Assim, se tem algo que posso escolher não fazer, não ler, não me envolver pra não me fazer mal, não o farei. E irei gastar meu tempo, minha energia, tudo o que posso dar em coisas e pessoas que realmente valem a pena.

Quando eu digo que não quero nada além do que me faz bem, eu falo de tudo tudo mesmo. Trabalho, conteúdo, notícias, livros. Tudo.

E isso inclui pessoas.

Essa é uma das partes mais complicadas. Isso porque existe essa regra de que a gente sempre deve perdoar tudo, dar a chance de a pessoa demonstrar que mudou. Você decidir romper com uma pessoa porque a relação deixou de ser positiva ou porque você percebeu que as diferenças são nocivas faz de você uma pessoa horrível aos olhos dos outros.

Ultimamente eu prefiro ser uma pessoa horrível.

O meu bem estar está acima de qualquer outra coisa. E se isso soar egoísta, paciência.

Dois acontecimentos recentes na minha vida abriram meus olhos pra essa necessidade: em um deles, uma pessoa de quem me aproximei e se tornou meu melhor amigo. Em uma discussão, ele revelou o que realmente pensa das mulheres. Inclusive falei deste caso em outro texto aqui no Medium.

No outro, uma amiga que fiz por termos interesses em comum. Depois, ela virou o típico caso de pessoa que namora e esquece do mundo e quando o namoro afunda, volta a te procurar. Achei que era uma boa ideia aconselhá-la mas logo ela se revelou uma pessoa bem problemática em vários aspectos.

O mais complicado deles era a homofobia, cujo gatilho era esse relacionamento que ela tentava reatar. Em determinado momento, e após outra discussão, percebi que não queria nem a merda emocional que ela queria jogar nos meus ombros nem a convivência com uma pessoa cujos valores eram tão agressivamente diferentes dos meus.

Nem é a questão de ter no seu círculo de convivência somente pessoas que pensem como você: é a postura dessas pessoas em relação a assuntos que são importantes para você. No meu caso, sendo feminista e uma pessoa que defende direitos das minorias, é importante que as pessoas saibam que creio que todas as mulheres são gente, e que homossexuais também são gente e todos tem os mesmos direitos: não serem estuprados, formarem família, viverem e se expressarem em segurança.

Foi o que meu então melhor amigo fez, ao afirmar que uma vítima de estupro de um caso famoso merecia ter seu ânus rasgado porque ela não cabia na régua moral que ele criou pra si, ou ver minha amiga ofendendo sistematicamente gays porque a orientação sexual do namorado não era o que ela esperava.

A gente tende a aceitar afirmações assim em nome de uma tolerância que essas pessoas mesmas são incapazes de praticar. É aí que entra uma escolha: o quanto quer me expor a isso? Vale a pena gastar tempo e energia argumentando com pessoas assim? Vale a pena ter uma amizade na corda bamba, sem saber o que ela realmente pensa?

Minha resposta, para ambos os casos, foi não. E tem sido não toda vez que percebo que estou perdendo meu tempo, ou me deixando levar pela falta de humanidade das pessoas que conheço.

Não me demoro mais onde não posso crescer, onde não posso contribuir, onde não pode haver uma troca que seja boa para as pessoas envolvidas.

E isso não quer dizer maltratar a pessoa, ou entrar em um embate (embora isso acabe acontecendo eventualmente). Dar um passo atrás, cortar contato e seguir adiante é o que tem funcionado para mim. E não tem nada a ver com perdão. Tem a ver com o que eu quero. E eu não quero uma relação que irá me fazer mal em sentido nenhum.

Cada pessoa tem um tempo de crescimento. Forçar esse tempo mantendo o laço é inútil. E chega um momento em que você decide deixar a pessoa por si, quer ela mude, quer não, quer ela cresça, quer não. Já não faz mais diferença para você. Ela que siga o seu caminho enquanto você trilha o seu, com seus próprios erros e acertos.

Manter apenas relações saudáveis abre espaço para que novas ligações assim venham. Relação saudável não quer dizer perfeita. Quer dizer que há espaço para discussões, respeito e ajuda mútuas. Quer dizer que há diferenças, mas que o bem estar da outra parte também é importante.

E isso é uma coisa que você pode escolher. A vida em si mesma já põe no seu caminho um monte de situações e pessoas tóxicas. Como você lida com elas é algo totalmente seu.

E hoje, eu escolho não carregar o veneno de mais ninguém.