Por que ateus têm filhos?

Eu estou com essa pergunta na cabeça faz tempo… Eu não sou atéia, nunca fui, mas me interessa (e muito) como as pessoas tomam decisões. É muito fácil bater nos cristãos, muçulmanos e judeus, que em seus livros sagrados contam eventos como nascimento virgem, cavalos alados, mares abrindo e comida caindo do céu. Mas também há falhas na lógica atéia e quero explorar um pouco isso.

Eu sou estúpida por crer em Deus, mas os ateus também têm suas crenças e atitudes ilógicas.

Se uma pessoa se declara atéia, ela não acredita na existência de Deus, sob nenhuma forma. O universo é totalmente explicado pela física e o surgimento dos humanos totalmente explicado por eventos aleatórios. Até aí tudo bem, perfeitamente lógico. Mas, se não há nada além da nossa existência, por que os ateus têm filhos?

Ter um filho é algo extremamente perigoso: você coloca todo seu investimento em um serzinho que pode não sobreviver, pode nascer "defeituoso", que vai drenar suas economias, seu tempo e seus esforços. Uma das razões que um ateu poderia me dar é que ele/a gostaria de passar seus genes para frente, para a "eternidade".

Mas todos nós sabemos que essa eternidade não existe para os ateus: toda a ciência corrobora que a Terra será extinta em 5 bilhões de anos, o que nos forçará a procurar um lugar entre as estrelas. Se formos extremamente otimistas e acreditarmos que nossa espécie estará viva daqui há 5 bilhões de anos (mais tempo do que a Terra tem até hoje). Toda a evidência aponta para a nossa extinção, pois não há espécies sobreviventes na terra por esse período tão longo. A vida poderá continuar, mas nossa espécie, não. Quero dizer que acreditar na prosperidade da humanidade é um ato de fé, completamente irracional.

Eu li alguns blogs ateus dizendo que as pessoas podem ter filhos por egoísmo ou por querer companhia. Tudo bem, pode ser, mas não é uma escolha muito racional: se eu sou egoísta e quero um legado melhor trabalhar pra colocar meu nome na história, como Einstein, Newton ou Sócrates. Um filho tem muito mais chances de me decepcionar do que levar meu nome pra posteridade. E se o problema for companhia, melhor comprar um cachorro ou gato. Mais fiéis e não vão embora.

Então eu me pergunto: pra que ter filhos se eu for ateu? Ora, se for no susto ou por acaso é claro que o ateu vai me dizer: estou "preso" com essa criança, agora preciso sustentá-la. Mas a maioria das pessoas que eu conheço tiveram filhos por uma decisão consciente, um ato de vontade. Mas pra mim é difícil entender essa decisão de uma perspectiva ateísta. Se eu não acreditasse em Deus, na bondade, no universo, eu não teria um filho mas nunca. Nunca correria o risco de ter um filho pois ele e eu poderíamos sofrer imensamente em virtude de doenças, acidentes, eventos fora do meu controle.

Eu assisti esse especial da HBO, Life according to Sam, portador de progeria, doença que o faz envelhecer rapidamente. Sam teve uma vida muito dura por causa dessa doença: perdeu várias experiências pelas quais passamos, como namorar, correr, jogar, ter amigos, além da dor física, e não há tratamento. Ele morreu em 2014, com 18 anos. A mãe dele é atéia e diz: "não há Deus, sob nenhuma forma, que faria isso com uma criança". Eu entendo o desespero da mãe, mas uma coisa que me intriga é: da perspectiva humana, ter um filho com progeria, que sofra um acidente, que seja sequestrado por um serial killer e mantido em cativeiro por 20 anos é uma possibilidade. Portanto, não é racional ter um filho pois os retornos são baixos (ou inexistentes) e os riscos financeiros e emocionais são enormes.

Da perspectiva de um crente tudo isso "faz sentido" pois Deus, ou o Universo, ou a bondade existem e farão um "balanço cósmico" seja pela reencarnação ou pela vida após a morte. Você pode até me dizer que isso é uma ilusão, mas da perspectiva do tomador de decisão faz sentido: tenha um filho pois, de uma forma ou de outra, Deus ou o Universo o protegerá, nesta ou na próxima vida.

Qual a justificativa que um ateu usa pra racionalizar a decisão de ter um filho? Eu não sei responder. E você?