A cidade é um condomínio (e vice versa)

Se não temos tempo de olhar com a devida atenção para o estado do nosso próprio lar, como vamos ter para com a nossa cidade?

Um grande amigo meu reclama dos R$ 900,00 de condomínio, que considera muito alto para um prédio de “só 5 andares que nem tem salão de festas”. Mas ele nunca questionou o síndico, nem lhe cobrou medidas para cortar despesas.

Como se já não bastassem as cerca de 10 mil decisões que ele toma por dia (algumas delas envolvendo seu apartamento), ainda por cima é convocado a cada 4 anos para refletir sobre a atual situação do seu município e decidir qual rumo seguir. Suave!

No condomínio do meu amigo (assim como em qualquer um) existem aqueles vizinhos de maior poder aquisitivo (e também político) sobre os demais; aquela grande maioria que sabe onde estão os problemas, mas se cala para não se comprometer; e os que só enxergam problemas, mas nenhuma solução. No final das contas, o bom e o mau estado do prédio, é diretamente proporcional à limpeza das áreas livres, ao funcionamento do elevador e ao risco de sofrer um arrastão.

Alguma diferença com o que acontece da porta pra fora? Tenho cá minhas dúvidas se é possível conciliar a preocupação com o atendimento prestado pelo plano de saúde regiamente pago e a demora para marcar uma consulta no hospital público (também bancado por nós). Ou mesmo procurar entender o porquê da tarifa do ônibus ser tão alta enquanto precisa memorizar o dia da placa de cada um dos dois carros na garagem…

Pra muito eleitor, não sofrer assalto ou levar bala perdida na rua e a calçada limpa e bem conservada, já são motivos para achar que está tudo bem na cidade — não importando o quão ineficiente e corrupta seja a administração. E que ainda pode ficar melhor. Será?

No condomínio do meu amigo vivem pouco mais de 100 pessoas, nenhuma delas se voluntariou pra assumir o cargo de síndico, entregando tudo para a administração privada. Se pudessem fazer o mesmo com a própria cidade, o fariam com os olhos fechados. Isso me angustia. Porque o condomínio pode até ter prazo de entrega estabelecido em contrato, mas a cidade é e será sempre uma obra inacabada. E direta ou indiretamente interferimos em seu andamento.

Não vou repetir aquela ladainha sobre mandar e-mail/telefonar para o vereador/prefeito, assistir às sessões da Câmara, nem mesmo sobre passar a lupa nas contas públicas ou no famigerado (e mal-afamado) programa político, mas, tão somente, de utilizar os sentidos, sobretudo o crítico.

Pior que não votar na assembleia de condôminos ou nas eleições é decidir sem refletir ou debater.

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