Cachorro Louco

Angélica Menchini
Feb 1 · 5 min read

Quando eu tava de barriga do meu mais moço, eu confesso pro sinhô que eu fiquei escabreada. Já tinha seis menino, tudo com cara de fome. O menózinho inda mamava no peito, seu moço.

Mas, cê sabe, num era da fome que eu tinha medo não, graças ao bom Deus a comida dava, moço. Eu tinha medo era do lobisomem.

Eu sei que cê quer rir, moço. Ninguém acredita no lobisomem até ver com os próprios olhos num é? O meu marido também não acreditava não. Olha, aquele cabra num acreditava era em nada mesmo, viu, moço? Era um troço teimoso lazarento que só ele. Mas no final, seu moço, acabou que se acabou desse jeito, né mesmo? O diabo que o carregue. Cabra ruim, seu moço. Num tinha jeito aquele homem.

Ah? O que tem a ver com o lobisomem? Deixa eu contar pro sinhô direitinho.

O falecido cabra tinha seis irmão e duas irmã. Tudo mais velho que ele, então que ele era o sétimo, né? Sabe moço, num sei se cê sabe mas dá azar ter sete filhos dum cabra desses. Num sabia não? É. Acho que vocês da cidade grande tudo esqueceram essas coisa, né? Acho que cê já tá me achando meio abestalhada, né? Mas me escuta até o fim, moço.

Então que quando a barriga apontou eu me apeguei logo com Nossa Senhora. E olhe, moço, eu rezava era dia e noite. O cabra do meu marido só fazia rir e rir. Um dia desses até chegou em casa falando que já tinha um nome pra batizar o novo moleque. Bento. Até chorei, moço. Tava com um barrigão enorme já.

Mas aí quando as dores vieram, parece que Nossa Senhora me ouviu e ao invés do Bento, nasceu a minha Ismália.

E a danada nasceu bonita, moço. Coisa mais linda de se ver. Até o pai ficou orgulhoso. E eu fiquei aliviada. Até pedi pro Padre rezar uma missa pra Nossa Senhora. Eu tava tão feliz, moço. Depois disso eu nunca mais que peguei barriga, graças a Nossa Senhora. Era um final feliz, moço. Todo mundo tava feliz, né?

Quero dizer, todo mundo menos a Ismália. Tadinha da minha menina. Cresceu triste triste, moço. Sempre muito quieta nos pensamento dela mas sempre muito braba. Cheia de cabelo nas venta. Igual à mãe, moço. Mas cadê que os cabra gostavam de mulher arretada, moço? E pior. Cadê que minha Ismália gostava de algum cabra?

Nem se comportar que nem moça ela queria. E eu bem que tentei colocar juízo naquela cabeça oca mas, moço, como era difícil! Costurando era uma desgraça. Cozinhar ela não queria, mas caçava bicho que só ela! Melhor até que os menino tudo. O cabelo que eu arrumava com tanto esmero, ela rapava com a faca, moço. A saia que eu ajeitava, ela fazia de calça, amarrava nas pernas. Uma dor de cabeça!

Aí num dia desses eu não aguentei e falei um monte nos ouvidos dela, moço. Onde já se viu? Parecida até que tinha nascido Bento ao invés de Ismália.

Mas olhe, foi minha derrota, moço, porque a criatura grudou aquilo na cabeça e não tirou mais. Depois disso, moço, era eu gritar: “Ismália”, que a danada ria e gritava de volta: “Sou Bento!”

O cabra ficava era furioso, moço. Parecia o cramunhão. Cada vez que Ismália gritava que era Bento, era mais uma surra que eu levava, moço. Como se a culpa fosse minha. Onde já se viu isso, moço?

Mas as coisas só ficaram estranhas uns anos depois disso tudo. Um dia a cidade toda acordou aperreada. Era uma zona absurda, uma correria de lá pra cá. Sangue e pena por todo lado, moço. Algum bicho selvagem tinha aparecido por essas banda e fez foi um horror nas galinhas de Adão, ali na rua de baixo, moço. Eu nem fui ver, meus meninos que foram. E Ismália? Eu não deixei ela ir não! Uma coisa dessa num é lugar de moça não, sinhô.

Na noite seguinte foi a mesma baderna. E na outra também. Até que alguém disse que parecia ser coisa de lobo. Ninguém queria acreditar porque não aparecia lobo por essas bandas tinha anos, sabe? Daí quando começou a aparecer corpo de gente a cidade toda ficou com medo do tal lobo. Mas eu sabia o que era, moço. Eu sabia porque era Lua Cheia.

Na ultima noite de lua cheia eu fiquei acordada bem quieta na cama, moço. Todo mundo dormindo quieto nas suas camas e eu só espiando. Já era mais de meia noite quando eu ouvi o barulho da tramela mexendo. Daí eu fui pé ante pé pela casa até o quarto dos menino e olhei um a um. Num é que a Ismália num tava lá? Olha, moço, meu coração chegou a ficar pequeno pequeno. Foi aí que meu cabra acordou e eu tive que contar né?

Ah, não. A parte do lobisomem ele não acreditou não, moço. Pensou era que Ismália tava se engraçando com algum cabra da cidade e ficou espumando de raiva. Catou a garrucha que ele guardava embaixo da cama e saiu atrás dela. Eu fui atrás, moço, pra evitar uma desgraça.

Mas não precisou nem de dez passos, veja bem. Mal a gente abriu a porta e lá tava o bichão. Debaixo da luz da lua parecia mais alto que a torre da igrejinha. Os pelos preto cheio de brio. Ficou encarando a gente como se tivesse duvidando se atacava ou corria. Daí o cabra, afogueado, atirou. Bastou isso, moço, praquele bichão vir na direção da gente. Olha, moço, foi milagre eu não ter morrido naquela hora, viu? Mas o bichão só pulou em cima do cabra e levou metade dele numa mordida só. Eu achei que ia gritar mas não dei nem um pio, sabe?

Depois o bicho me encarou. Tinha sangue aos monte no focinho mas mesmo assim, só de olhar naqueles olhos, eu sabia bem quem era. Achei que ia morrer também. Mas o bicho só me olhou, olhou, olhou e depois ganiu e fugiu pro mato.

Olha, eu tava com medo, moço, não vou mentir por sinhô, mas eu fui atrás dela, né? Era minha menina, moço. Eu não podia deixar ela fugir assim, sozinha.

Sai desembestada pelo meio da mata, gritando o nome da minha menina. Deus não me deu muita força nos braços, moço, mas o que ele não me deu nos braços eu tenho de sobra nas perna, moço. Dei uma carreira boa, viu? E eu gritei bastante, moço. Cheguei que perdi o fôlego.

Mas aí eu percebi que eu tava chamando o nome errado esse tempo todo.

Respirei fundo e gritei: “BENTO!”

Ai tudo ficou muito quieto por um minuto. Depois eu ouvi um ganido bem baixinho e foi crescendo e crescendo. Daí eu vi ali na clareira, primeiro uns olhos vermelhos, dai um focinho. Um passo e mais um ganido. Depois foi virando choro. O pelo foi caindo todinho e debaixo daquilo tudo, moço, tava a minha Ismália.

Quero dizer, minha Ismália não. O meu Bento.

Depois disso tudo não tinha muito o que fazer, sabe? Peguei meu menino pelo braço e levei pra casa. A gente disse pra toda gente que o cabra tinha sido atacado pelo lobo. Não era bem uma mentira, né, moço?

Han? Se todo mundo acreditou? Claro, moço.

Afinal, quem é que acredita em história de lobisomem?

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Angélica Menchini

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Ilustradora e escritora nas horas vagas.