Quando você perde o timing da ideia

Descrição da imagem: fundo branco com várias lâmpadas alinhadas em uma fileira. Apenas a lâmpada do meio está acesa. (imagem retirada do pixabay)

Nunca estive tão inspirado para escrever como estou essa semana. Tá, talvez usar as palavras “nunca” e “inspirado” seja um pouco exagerado, mas é verdade que estou com uma vontade grande de escrever e andei tendo alguns pensamentos bacanas que podem desenrolar textos legais.

Acredito que parte disso vem da meta que estabeleci de escrever um texto por semana. Parece que ter me colocado para funcionar no tranco tá surtindo algum efeito e eu preciso aproveitar isso, que seria ótimo, se não fosse por um probleminha.

A semana que ideias pipocam na minha cabeça também é a semana que menos tenho tempo nos últimos meses. Além da rotina normal na agência que trabalho, trocaram as datas de um módulo que eu ensino em uma pós e acabei pegando umas aulas para preparar, de última hora, pra esse fim de semana. Ou seja, estou trabalhando de manhã, de tarde, de noite e entrando pela madrugada. Que tempo sobra pra eu dar check no texto da semana?

Mal comecei a executar o plano de um texto por semana e já me vi numa situação que pode me fazer atrasar ou falhar com a meta. Ainda é a segunda semana do ano, estou empolgado com 2017 e não queria quebrar logo no início.

E acho que não vou, já que arrumei um tempinho aqui e estou escrevendo, ligeiro, o que tá passando pela minha cabeça agora. Vou explicar, porque o título ainda não tem nada a ver com o que falei.

Acontece que, estamos o tempo todo tendo boas ideias e pensamentos que serviriam para textos, vídeos, fotos, desenhos e seja lá o que você goste de criar. Mas o que fazemos?

“Que ideia legal! isso é muito bom! Vai dar um texto bem massa. Vou anotar aqui num papelzinho pra não esquecer e quando eu tiver com mais tempo eu pego nisso aí.”

No meu caso, já eliminei os papéis (com exceção de uns caderninhos, que uso às vezes) e, se eu tenho uma ideia, coloco nos meus rascunhos aqui do Medium e deixo pra um momento que tiver mais tempo ou quando a preguiça não estiver me dominando. Porque isso acontece mesmo, não podemos negar. Não é sempre que deixamos de fazer algo que queremos, e achamos que pode ser bom, apenas por falta de tempo. A preguiça está bem presente e nos faz procrastinar por muito tempo.

OK. Você deixa o rascunho lá. Depois de alguns meses, um ano inteiro talvez (ou anos, nos piores casos), te dá uma vontade de escrever ou de sair do marasmo e se movimentar, fazer algo diferente e você chega nos rascunhos com todo ânimo. Tá tudo certo. Muito simples, basta pegar qualquer um desses e desenvolver a ideia.

Só que não acontece bem assim. Pelo menos comigo, é como se tivesse sido outra pessoa quem escreveu aquilo. A ideia desaparecesse. Ela tá lá escrita, mas não existe mais em essência. Não lembro nem o que eu quis dizer quando escrevi aquilo. Quando lembro, não faz mais sentido pra mim naquele momento. Não estou mais na efervescência do assunto, com a inspiração catucando.

Não é que não seja possível retomar uma ideia antiga. Só não vai ser a mesma coisa. Sinto que se eu sentasse no momento que a ideia vem e começasse a desenvolver alguma coisa, o texto sairia fácil. Não precisa nem ser na mesma hora e nem terminar numa sentada. Você pode ir maturando, pensando sobre, estudando, até porque tem textos que precisam de mais tempo de escrita, de análise e observação. A questão é não deixar ela abandonada pra morrer e perder o sentido.

No momento estou com 30 rascunhos no Medium com textos inacabados, alguns têm só o título, outros um parágrafo ou dois. O mais antigo deles tem dois anos. Fora as ideias que escrevo em bloquinhos, cadernos, bloco de notas do celular e espalhados em post-its pelas paredes da casa. Pode ser que ajudasse se eu as registrasse de uma forma mais explicada. Posso tentar. Mas nunca vai ser a mesma coisa que escrever no calor do assunto, da inspiração, da ideia brotando e da propriedade que você está sentindo ter na hora.

Descrição da imagem: foto tirada no momento em que escrevo esse texto. Trata-se de parte do meu home office. Parede branca com post-its espalhados por ela. Há uma mesa no canto inferior esquerdo com um laptop, cadernos e canetas.

Eu sei que nem toda ideia sai do papel e não tem nem como colocar pra funcionar todas elas. Mas perder o timing de uma ideia boa é muito chato. Já ouvi histórias de escritores (perdão por não lembrar o nome de nenhum, mas vocês podem ajudar aí nos comentários, caso saibam) que interromperam um romance na metade (por alguma razão) e quando voltaram não conseguiram mais. Recomeçaram do zero. Tudo de novo.

Mas também sabemos de obras que passaram 5, 10, 15 anos para serem feitas. Tem também aquelas ideias que você não tem tempo de vida ainda pra compreender o seu tamanho e que pode virar algo bem melhor no futuro. Tudo é questão de como você encara o seu rascunho. E também da forma que a ideia lhe aborda.

As que vêm com força e lhe tomam de maneira instigada são as que não podemos deixar o tempo matar. As que não vêm desse jeito podem ser adaptadas e virar algo bem mais animador.

É sempre bom lembrar que uma mesma ideia pode gerar infinitas criações. Os fatores que determinam as variações são inúmeros. Um deles é o tempo. A gente envelhece, muda, transforma o olhar. A forma como olhamos para uma ideia hoje é diferente do que vamos olhar daqui a 20 anos.

No fim das contas, não estou dizendo que você precisa escrever tudo que vem à cabeça, sem cautela. Mas sim que você não deixe as ideias irem embora, tão fácil, por razões pequenas. Revisite seus rascunhos e rabiscos, estude-os, observe os assuntos, mantenha-os vivos e aprenda a decidir o que vale e o que não vale a pena ser executado.

O que não vale, aprenda a desapegar! O que se mostrar válido, não perca tempo. Faça!