Paisagem da Janela — Dom Silvério

“Na janela lateral do quarto de dormir, vejo uma igreja, um sinal de glória. Vejo um muro branco e um vôo, pássaro. Vejo uma grade, um velho sinal…”

“Paisagem da janea” — Lô Borges

Fui para Minas Gerais com a minha noiva semana passada. Ficamos 5 dias por lá e contando os trajetos de ida e volta, bem como os deslocamentos entre as cidades de Minas, conta-se aí mais um dia e meio, ou seja, quase uma semana fora de São Paulo. O que me faz pensar o quanto SP bitola

mesmo quando se mora num extremo da cidade que mesmo aos olhos da cidade já não se mora mais na cidade.

Faz parte. Faz parte?

Nos primeiros dias ficamos em Dom Silvério, uma cidade pequena como eu não via desde quando fui à Bahia com meus pais aos 5 anos de idade. Lá percebi umas paradas muito loucas, que mostram o quanto as relações aqui estão viciadas. As pessoas realmente se preocupavam em fazer com que nos sentíssemos bem; o cuidado com a comida, com o calor, com a bebida, a atenção em conversar, sempre disponíveis, foi algo que eu, paulistano recluso e pra baixo até estranhei. Quase sem motivos a família da minha noiva bolou um churrasco, compramos cerveja (Skol 600ml a R$ 4,50 e Brahma 1l a R$ 5,50, e eu apenas repetia incrédulo “como paulistano é trouxa”) e assim, sem mais nem menos estava feito o churrasco.

E assim as pessoas se sentam no quintal e conversam. Quem bebe, bebe. Quem come, come. Quem conversa, conversa.

Uma coisa que tenho notado é que um certo moralismo (ou prepotência) geracional às vezes faz com que nos enxerguemos como mais esclarecidos ou gente boa que os mais velhos. Ledo engano. Quanto mais presto atenção em uma galera mais velha, tanto da família da Glau quanto da minha, percebo que filho da puta é filho da puta independente da idade, e gente boa é gente boa, independe de CEP, idade, ou nível de escolaridade. E com uma diferença: a pessoa quando é gente boa, e é mais velha, mostra com uma carga de experiência o motivo das coisas.

Ok, não vou dizer que tudo foi mil maravilhas. Teve um cara lá que é amigo da família que nunca tinha me visto e fez piada porque eu disse tinha sentido dor de cabeça durante o dia — sugeriu que dor de cabeça era coisa de gay — e mesmo tendo visto que eu fiquei constrangido — afinal, apesar de ter sentido vontade de falar umas pro cara, não queria arrumar confusão na casa da família da Glau, que eu visitava pela primeira vez — o cara insistiu com piadinhas homofóbicas quando viu que eu ia lavar a louça do jantar e não simplesmente entregá-las “para a mulher lavar”. Situação delicada em que a Glau se impôs, dizendo que sim, eu teria que ajudá-la. Eu concordei. Achei justo e elegante da parte dela.

Enfim, tirando por esse sujeito, o que notei no interior foi uma lógica de busca pelo convívio e manutenção dos laços. A casa da Avó da minha noiva é uma casa grande e movimentada, em que se nota o prazer em receber as pessoas. Engraçado isso, porque eu, particularmente sinto cada vez menos prazer em receber pessoas aqui, na minha. Não é questão de vestir uma máscara de antissocial, mas de evitar o imprevisível, de tentar… controlar o convívio.

Admito que em certo momento, no terceiro dia, não via a hora de ir pra um lugar com menos convivência. Claro, a gente se adapta. Se a previsão de estadia fosse maior, essa estafa viria muito depois ou talvez nem viesse.

Mas pra resumir essa primeira parte em uma frase curta e não confusa como o restante do texto, fez um tempo bom em Dom Silvério.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.