Nenhum começo é perfeito

Um dia desses, comentei com um amigo sobre a dificuldade que tive para começar a escrever um texto. Liguei meu notebook, abri o Google Docs e nada. Nem uma vontadezinha de digitar uma frase. Ele me perguntou porque eu não conseguia simplesmente começar a escrever, e eu não sabia responder à pergunta dele.
Mais tarde, no mesmo dia, tive que fazer uma entrevista com uma psicopedagoga. Nada demais. Uma das perguntas era: “Perfeccionismo é um defeito ou uma qualidade?”. Estava crente de que ela ia dar uma resposta genérica, do tipo “pode ser tanto um, quanto o outro, só depende da gente”. Mas ela quebrou minhas expectativas dizendo: “ O perfeccionismo é um defeito, porque o perfeccionista não faz tudo bem feito, ele deixa de fazer porque tem medo de que algo não saia perfeito”.
Deixei de prestar atenção nela por alguns segundos. De repente, um filme com todas as vezes em que deixei de fazer algo na vida passou pela minha cabeça. Fiquei um tanto perturbada por ter encontrado a resposta da pergunta que mais cedo me fizeram, mas que era uma pergunta que eu me fazia constantemente: Aline, por que você já não começou a fazer isso?
Uma das coisas que a entrevistada me disse foi que crianças que não são cobradas pelos pais tendem a se cobrar mais. Lembrei da minha mãe, que nunca me cobrou em demasia; se eu fizesse o básico, já estava bom. Mas eu não queria o básico, eu queria sempre mais. Eu tinha que tirar 10 em (quase) tudo, os professores tinham que gostar de mim, eu tinha que saber mais que todo mundo, eu tinha que estar na “melhor faculdade”. Ninguém cobrava isso de mim, mas eu cobrava.
O esforço para ser perfeita na escola era tão grande que não sobrava energia para tentar coisas novas. Afinal, por que começar algo e correr o risco de não ser perfeita? Pra que arriscar se vamos todos errar? Deixa pra depois, quando eu provavelmente estarei mais apta a não errar.
Erro mesmo foi ter deixado de fazer tanta coisa por uma besteira dessas e que só hoje percebo o quanto isso foi (e continua sendo) prejudicial. Por conta disso, deixei de aprender idiomas, deixei de tocar instrumentos, deixei de fazer o que eu sempre quis fazer. Errei na tentativa de não cometer erro algum. Que coisa, não?
Apesar de tudo isso, não culpo a Aline de alguns anos (ou de algumas semanas, ou dias). Essas situações existem para me lembrar o quanto dói não começar projetos novos pelo simples medo do erro. E que mesmo achando que estava evitando o erro ao não começar a fazer as coisas, eu errei. Este texto é uma das coisas que eu queria fazer há muito tempo, mas não fiz por causa desse medo chato de errar e dessa estúpida busca pela perfeição (que, na real, não existe).
Que venham mais coisas novas que nem essas daqui pra frente (mesmo que elas não sejam perfeitas).