Ciências Cognitivas, linguística, aquisição de implicaturas e autismo. Um pouco de cada ou o que eu estudo no meu mestrado.

Jon Torres
Aug 27, 2017 · 7 min read

Tendo passado um ano desde que eu compartilhei a reportagem sobre as crianças mais novas terem dificuldade em entender o uso do “ou” exclusivo e disse que iria escrever um pouco sobre minha pesquisa, acho que tá na hora de eu tomar vergonha na cara. Sem dúvida, esse não é o “texto definitivo” de vulgarização do que eu faço. Entretanto, não prometo nada breve, eu faço textão sobre coisas que não manjo nada, imagina sobre o que eu sei um pouco… Ao longo do texto, irão aparecer uns links clicáveis, alguns acessíveis e outros nem tanto, deixei eles pra quem quiser tiver realmente interessado em ler mais sobre o que está sendo dito.


Bom, vamos lá. Começando pelo começo.

Dá para dizer que minha pesquisa está ancorada no leque das Ciências Cognitivas (CogSci), um ramo da ciência® bastante multidisciplinar e pouco difundido, em sua totalidade, por aqui. Na linguística é um termo complicado, então costumo dizer que eu estudo Linguística Formal ou Linguística Formal e Cognição e não Linguística Cognitiva, mas isso fica para outro texto. Resumindo bastante, as CogSci estudam como os processos cognitivos como visão, memória, linguagem, comunicação e etc. acontecem no nosso cérebro/mente. Como eu mencionei, algumas disciplinas compõem as CogSci e por ordem de relevância na minha pesquisa, as intersecções são: Linguística, Psicologia, Filosofia da Mente e Neurociência. A minha área está então mais fortemente na intersecção entre linguística e psicologia e, portanto, pode ser chamada também de psicolinguística.

Áreas que constituem as Ciências Cognitivas

Eu, especificamente, estudo como crianças com desenvolvimento típico e crianças com Transtorno do Espectro Autista adquirem um fenômeno linguístico, no nível de análise da pragmática, conhecido na literatura por “implicatura escalar”. Oi? Adquirem? Implicatura escalar?

Geralmente, quando um linguista usa o termo aquisição da linguagem (AQ), é para se referir à capacidade humana de, a partir da primeira infância (em média, até uns 5 anos de idade), percebermos e compreendermos alguns aspectos da língua: seus sons; como pedacinhos de significado se juntam e formam palavras; o que elas significam e como essas palavras geralmente se organizam numa sentença. Parece algo extremamente trabalhoso, mas para você ter ideia: bebês, desde cedo, parecem já conseguir fazer a distinção entre línguas pouco parecidas como japonês e holandês, por exemplo.

É importante dizer que existem modelos teóricos sobre AQ a dar com pau e, entre eles, o que nos interessa aqui são os que partem do pressuposto que os seres humanos nascem com a capacidade para adquirir qualquer uma das ~7000 mil línguas do mundo, aproximadamente na mesma idade e passando pelos mesmos estágios, independentemente da língua falada e da cultura inserida. Isso, claro, serve também para línguas de sinais, línguas táteis e línguas táteis de sinais, tendo em vista que estas línguas são línguas naturais como qualquer outra língua possível de ser adquirida.

A aquisição da linguagem, sob essa visão, faz parte do desenvolvimento humano e as teorias preveem que as crianças necessitem ser expostas a ambientes em que outras pessoas falem com elas para que possam adquirir uma língua. Assim como preveem que tendo passado certa idade, nós não mais conseguiremos adquirir uma língua da mesma forma que outra pessoa dentro do período crítico adquiriu. Não quer dizer que não possamos mais aprender uma língua, mas nossa performance não será a mesma de um falante nativo daquela língua, ou melhor, diante de algumas frases é possível que não entendamos bem o que ela quer dizer, não pelas palavras utilizadas apenas mas pela sintaxe também, ou que não consigamos pronunciar alguns sons da mesma forma que um nativo. Por enquanto, creio ser suficiente o que eu disse sobre aquisição que é um dos pilares da minha dissertação.


Uma coisa que é comum na linguística é a separação por níveis de análise: fonética/fonologia (estudo dos sons das línguas), morfologia (estudo das palavras), sintaxe (estudo da ordem das palavras), semântica (estudo do significado) e pragmática (estudo da língua em uso e da conversação). É a pragmática o nível de análise em que se encontram as implicaturas, porém isso não quer dizer que os outros níveis não se encontrem. Ok, eu já disse “implicatura” umas 4x e até agora não expliquei do que elas se tratam.

Sabe quando, num dia chuvoso, nos perguntam se queremos sair e respondemos algo como “tá chovendo”? Então, se a pergunta tivesse sido “você quer sair?” a resposta esperada seria “sim” ou “não”. Mas, ao invés disso, muitas vezes optamos por dar uma resposta “indireta” que dá a entender nossa intenção. A implicatura seria o componente do significado que o falante quis veicular, embora não esteja explícito no que foi dito. Porém, não se tratam apenas de respostas. Um exemplo famoso na literatura é imaginarmos que tenham pessoas jantando, quando uma pergunta à outra “você pode me passar o sal?”, seria bizarro se a resposta fosse “sim” e a pessoa continuasse comendo, o esperado é que o sal fosse passado se possível. A implicatura, nesse caso, é que não se tratava de uma pergunta sobre a possibilidade de passar, mas sim um pedido para que o sal fosse passado.

Como o nome sugere, as implicaturas escalares são implicaturas que envolvem escalas, uau. Quando a gente fala de escala, nos referimos a uma escala de informatividade. Podemos pensar na escala <todos, alguns> em que, pela posição na escala, o item “todos” seria o item mais informativo, enquanto “alguns” seria menos informativo. Agora veja o contraste entre estas duas sentenças:

(1) João comeu todos os biscoitos.

(2)João comeu alguns biscoitos.

Imaginando que a gente saiba que no pote tinham 5 biscoitos, ouvindo (1) sabemos exatamente o total de biscoitos comidos por João, já só por (2) pode ser que o menino tenha comido qualquer número de biscoitos entre 1 e 5. É por isso que o item “todos” é mais informativo que “alguns”, pois temos muito mais informação sobre a situação quando sabemos exatamente a quantidade. Ao mesmo tempo, dizer que alguém comeu “alguns biscoitos” inclui dizer que a pessoa comeu todos, tendo em vista que se caso João tenha comido a quantidade total de biscoitos e não sabermos, não é falso dizer que ele tenha comido alguns. A implicatura escalar (IE) seria essa diferença de grau de informação que itens escalares veiculam, como no caso de alguns, que pode nos levar a inferir um significado para além do que foi dito.

Pelo o que a literatura mostra, as crianças com desenvolvimento típico tem um pouco de dificuldade em entender essa diferença de grau até uns 3, 4 anos de idade. A nossa hipótese é que os processos pragmáticos, como as implicaturas, dependam de uma habilidade cognitiva chamada Teoria da Mente (ToM). É por meio da ToM que a gente consegue tentar prever ou teorizar (e por isso o nome) sobre o comportamento dos outros, partindo do pressuposto que as outras pessoas tenham mentes parecidas com as nossas, assim permitindo que nos projetemos nas outras pessoas (ToM de primeira ordem). Somos capazes também de imaginar quais crenças os outros tem e a partir delas prevermos ou teorizarmos sobre o comportamento dos outros (ToM de segunda ordem). Partimos do pressuposto que uma ToM de primeira ordem é necessária para que alguém consiga processar uma implicatura, tendo em vista que é também a partir dos 3 anos de idade que essa habilidade se desenvolve de forma mais madura nos nossos cérebros.

Certo, e sobre as crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA)? Bem, as teorias que utilizamos e que tentam dar conta de explicar o TEA partem do pressuposto que é justamente um déficit no desenvolvimento da ToM uma das principais características do espectro, que é bem vasto.

Até então, não existem estudos experimentais feitos com populações com graus severos de autismo, embora alguns estudos realizados com Autistas Altamente Funcionais ou pessoas com Síndrome de Asperger mostrem que existem algumas particularidades que comprometem o entendimento das implicaturas escalares, como maior tempo para processá-las em relação a falantes como desenvolvimento típico e que aumenta de acordo com o grau de autismo. Nossa hipótese é que pessoas com graus mais severos de TEA, por não terem uma ToM bem desenvolvida, falhem em conseguir entender frases que contenham implicaturas escalares.

Existem três grandes modelos teóricos que competem hoje para explicar o fenômeno das IEs e também como acontece sua aquisição por crianças (ou processamento, por adultos). Na minha dissertação, eu avalio os experimentos realizados sob estes modelos teóricos com crianças com desenvolvimento típico e crianças e adultos com TEA.

Legal, cara. Mas para que isso serve? Hmm, serve para algumas coisas. Uma delas, de cunho mais teórico, seria avaliar qual modelo seria o mais adequado para analisar este fenômeno e qual deles tem mais validade empírica-experimental. Outra coisa é que se nossa hipótese estiver num bom caminho, ou melhor, se ela for corroborada, teremos mais uma evidência de como funciona a competência linguística de pessoas com TEA e por sua vez, poderemos contribuir para a criação de ferramentas de avaliação e diagnóstico do transtorno.


Ufa, acabei. Espero que tenha conseguido contar sobre o que eu estudo e que tenha feito isso de forma clara. Qualquer dúvida ou sugestão ao texto pode me mandar inbox se você ler isso a partir do facebook ou comentar aqui mesmo.

)

Jon Torres

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Criei esse Medium para espalhar a palavra daqueles que ainda não tem consenso sobre o que é "palavra". Essas pessoas são conhecidas como “linguistas”.

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