Dos valores líquidos

É de conhecimento geral que, à medida que o tempo passa, a sociedade muda e adapta-se a novos formatos, valores e paradigmas. Heráclito propôs, sabiamente, que tudo é fluxo, e, após milênios de ocidentalidade, hoje não poderia ser diferente.

Paralelo a isso, o contexto tecnológico e de produção, segundo uma visão materialista-marxista, define a forma pela qual as relações sociais se dão. Por exemplo, a Revolução Industrial foi um marco para a humanidade, ao passo que mudou diametralmente a maneira de trabalho e, por conseguinte, a sociedade em geral.

Atualmente, a internet é o principal instrumento de propagação de informação, através do qual novas maneiras de interações foram criadas e, certamente, mudam completamente a forma como os usuários se relacionam, mesmo fora do ambiente cibernético.

O problema é que o mundo está cada vez mais virtual, ou melhor, as pessoas estão cada vez mais virtuais. A facilidade com a qual se inicia uma “amizade” é a mesma que se põe fim a uma, pois basta um clique e já há repercussão equivalente a um conflito físico. Entretanto, os interlocutores têm uma maior flexibilidade, facultando a eles importar-se e dar um tratamento mais impessoal à sua rede de comunicação. É tudo muito volátil, instável. Esse novo formato, inclusive, apresenta sérios riscos ao que se entende acerca de relacionamentos. Nesse contexto, não é de bom tom apontar essa crítica como um conservadorismo, pelo contrário, embora a sociedade evolua e se rearranje, é preciso atentar para que essa “modernidade” não afrouxe as interações humanas, que, inclusive, fazem parte da essência da humanidade.

Zygmunt Bauman, um dos sociólogos mais importantes da atualidade, em sua teoria da liquidez, a qual está espalhada em vários livros sobre o assunto, aborda os riscos do anteriormente dito. Sabemos que o conflito intrínseco às relações do homem com o próprio homem e deste com o mundo são o que lhe faz desenvolver-se, à medida que é “modelado” pelas adversidades da vida. No entanto, as redes sociais e a subversão das interações põe isso em risco.

Não obstante, o valorado atualmente é pautado em superficialidades grotescas que denunciam o quão medíocre a humanidade vêm se tornando. As redes sociais, vitrines de uma vida paralela que nem sempre condiz com o retrato da realidade, são utilizadas para propagar padrões estéticos e sociais que ratificam o elitismo, a ditadura da beleza, o narcisismo e hegemonia de parâmetros restritos a poucos, porém que muitos desejam.

Parafraseando Descartes, “sou visto, logo existo”.

A vida virtual, que seria um complemento à vida real, tem, na verdade, tomado o espaço desta e tornado-se a principal. Utilizando-se de exibicionismos, como mostrar o novo iPhone ou outro telefone de última geração caríssimo no camarote da balada, ou tirar a foto do prato servido naquele restaurante de alto padrão com o simples desejo de mostrar e não com a intenção de viver aquilo — por mais supérfluo que seja, o que todos temos direito e vontade de viver — , fica evidente que o intuito é ser visto. Ou seja, os atos não são praticados em função de si próprio, mas sim dos outros, ou ainda, dos likes que os outros darão.

Vide o luxo ostentado no instagram com o puro intuito de demonstrar o poderio econômico, as posses materiais… Porém pouca coisa, ou nada, além disso.

Ainda, a imposição de padrões encontrou campo fértil na internet, tendo em vista que as curtidas são o indicativo de aceitação social no meio e, quanto mais dentro desses arquétipos, mais likes, quanto menos deles, quer dizer que é preciso mudar algo. E realmente é, ao invés de entregar-se e mudar a própria essência, seu modo de ser, apenas por “aceitação”, não seria melhor mudar de perspectiva? Dessarte, é incontestável que o melhor bem estar é o proporcionado de si para si mesmo, o resto é resto.

Nesse contexto, percebe-se a fragilidade que esses sistemas de informações suplantam na sociedade, cabendo ao seus usuários saberem identificá-la e policiar-se, para que não se tornem meras marionetes controladas pela superestrutura de valores tão inapropriados e ameaçadores de uma conjuntura coesa do que é ser humano.

Lucas Ferrari

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