Fomos assistir a uma peça no Teatro Oficina

Rascunhos do projeto do teatro por Lina Bo Bardi

Um de abril, às 18 h. Dentro do Teatro Oficina, arquitetado por Lina Bo Bardi, entramos para assistir As Bacantes e o recinto encheu-se rapidamente. Ao entrar percebemos que o teatro não possui uma estrutura igual aos convencionais. O público se localizava em dispersas galerias construídas por andaimes ao longo das laterais do teatro e também no chão do térreo. Não havia um palco, ou algo que fazia destacarem-se os atores dos espectadores. O palco era algo fluido e as atuações aconteciam — imprevisivelmente — em todos os cantos do lugar. Durante a peça, os atores se distribuíram por todo o espaço do teatro, até mesmo os andaimes que cercavam o palco. Corriam pelos corredores estreitos das galerias e se arrastavam pelo piso ao lado da plateia.
O camarim dos artistas da Companhia de Teatro Oficina Uzyna Uzona, ou apenas Teatro Oficina, como é mais conhecida, seguia o mesmo conceito do palco, ficava em um dos andaimes e não havia paredes nem divisórias entre as pessoas que entravam para assistir à peça e as que lá se preparavam para atuar, trocar de roupa e fazer a maquiagem.
Zé Celso, fundador e diretor do Teatro Oficina, que comemorou seu aniversário de 80 anos na sessão anterior à que fomos de As Bacantes, possui uma grande sensibilidade em adaptar suas obras ao espaço arquitetado por Lina Bo Bardi, um espaço amplo e sem divisórias, onde o público se funde à peça e a peça ao público. A própria configuração da sala cria uma comunicação direta entre o espectador e o espetáculo, entre o ator e o espectador.
Uma das grandes características dessa peça, e de todas de Zé Celso, é a forte interação com o público, sendo intensa e anestesiante (desde o início, havendo trocas de olhares penetrantes a beijos na boca). Até mesmo o próprio Zé Celso, também ator dessa peça, no seu octogésimo ano de vida, beijou e acariciou várias pessoas da plateia.
As Bacantes, peça a que fomos assistir, narra a história de Dionísio, deus do vinho, da orgia, do teatro, das festas e de tudo o que é perigoso, inesperado e insano. Reconta desde seu nascimento até sua chegada a Tebas, onde passa a não ser reconhecido como um deus pelo rei Penteu, que declara a proibição do culto a Dionísio.
Há mais de 20 anos, a peça é encenada no Teatro Oficina e é atualizada em cada versão, trazendo temas da política brasileira e das lutas de minorias, mesmo sendo uma tragédia grega escrita em 450 a.C. Nesta versão, Penteu assume Tebas por meio de um golpe e vira uma paródia de Michel Temer. A luta de mulheres e o movimento feminista também está presente, no caso, nas bacantes, mulheres seguidoras dos ritos báquicos. E o caso polêmico do programa da prefeitura “ Cidade Linda” sobre pintar os grafites e pixos de cinza também estava presente com um personagem que se assimilava ao prefeito Dória.
Dividida em três atos e possuindo oficialmente cinco horas e meia de duração, a obra dirigida por Zé Celso é espontânea e imprevisível, portanto não respeita os horários e anda conforme a receptividade do público. Na vez que fomos teve sete horas de espetáculo.
O clímax da peça é quando ocorre o auge da conexão de um espectador com a obra, em toda exibição ocorre o sacrifício de um boi pelas bacantes para mostrar o poder das mulheres. Neste rito é escolhido alguém da plateia para ser sacrificado. Figuras como Caetano Veloso e Eduardo Suplicy já participaram em outras versões, e se resume em ser despido e tomar vinho enquanto as bacantes realizam uma dança dionisíaca ao seu redor.
Zé Celso cria em suas peças uma interação muito interessante com a cultura e o folclore brasileiro e isso não poderia deixar de faltar na peça mais famosa do Teatro Oficina. As mulheres seguidoras de Dionísio, por exemplo, são representadas como indígenas. Há uma forte presença também de músicas nordestinas e de religiões afro-brasileiras que se fundem com a mitologia grega da peça original.
Finalmente, a peça é envolvente e durante os atos a plateia vai ficando cada vez mais participativa e os atores mais desnudos. A impressão, quando é assistida até o final, é que se esteve em uma verdadeira orgia de Dionísio.

Zé Celso na sua comemoração de 80 anos, e sua roupa de preservativos inflados — Cafira Zoé

As Bacantes saiu de cartaz em abril, entretanto a Companhia Uzyna Uzona sempre está renovando essa peça, ainda sem previsão de volta. Mesmo sendo a principal obra do Teatro Oficina, vale a pena assistir qualquer peça dirigida por Zé Celso, que sabe criar uma comunicação entre a obra e o teatro físico, ressaltando a arquitetura magistral de Lina Bo Bardi.
No dia 24 de junho, estreará a peça de Oswald de Andrade Macumba Antropófaga. No Teatro Oficina, até 24 de setembro, aos fins de semana, às 16 horas. O ingresso custa R$ 60 (inteira), R$ 30 (meia) e R$ 20 (para moradores da vizinhança). O espetáculo tem duração de aproximadamente 5 horas. O teatro fica na Rua Jaceguai, número 520, no bairro do Bixiga.
Uma coisa é seguro dizer das obras, do espaço de Lina e da mente de Zé Celso: não foram feitos para pessoas que não estão preparadas para receber estímulos e se conectar profundamente com a arte do teatro.

Macumba antropofágica — atores nos andaimes do teatro

Por Rafaela Bonilla