Ele buliu comigo.

Foto da 3ª edição da Marcha das Vadias de São Paulo, em 2013.

Eu fico muito feliz de ver, hoje em dia, tanta gente nas redes sociais discutindo, dissecando e encontrando formas de lutar contra o machismo. Sempre que leio qualquer coisa relacionada a isso, sempre me vem à cabeça a mesma cena, talvez a primeira de tantas que me fez tomar consciência sobre a existência de um comportamento que privilegia apenas homens que se enquadram num determinado padrão.

Quando eu era adolescente, uma vez peguei um ônibus lotado, em Recife, onde presenciei uma das cenas mais chocantes até hoje de machismo, agressão, e humilhação, em plena luz do dia, a uma vítima de abuso. Em determinado momento da viagem, numa época onde o silêncio sepulcral imperava dentro dos ônibus — ninguém tinha celular, muito menos tocando música alta, ecoou dentro do coletivo um grito de socorro misturado com choro de uma moça. Pela voz, não devia ser muito mais velha que eu. Dizia ela, completamente constrangida, que tinha um homem mexendo com ela. “Bulir”, acho que esse foi o verbo ela usou, se não me falha a memória e levando em consideração o linguajar local. O que se passou logo depois do grito que assustou todo mundo é algo que me marcou muito: motorista, cobrador (é assim que a gente chama trocador, FYI) e todos os passageiros, em uníssono, começaram a zombar fortemente da moça.

“Deixa de ser queijuda, menina, ele só encostou em você. Não quer que ninguém encoste, compra um carro”, disse o cobrador, sorrindo, o que arrancou várias gargalhadas de muitos passageiros.

Queijuda, pra quem não sabe, em Recife, quer dizer donzela, cheia de fricotes.

Fricote. Foi esse o veredito daquele grupo de pessoas. Em nenhum momento o suposto agressor foi interrogado, sequer apontado, ninguém sabia quem foi. Ou quem foram.

“Se toda mulé que eu relar começar a gritar no meu pé de ouvido, agora, vou ficar moquinho”, disse outro homem do fundo do ônibus, algo que se pode ser traduzido como “se toda mulher que eu me esfregar começar a gritar, vou terminar ficando surdo”. Mais gargalhadas.

“Mas gosta de chamar atenção, essa aí, viu”, reclamou a senhora sentada que fazia o favor de segurar minha mochila pesada, visivelmente indignada por ter levado um susto com aquele pedido de socorro.

Ao descer do ônibus, logo em seguida, aos prantos e amparada por uma mulher que se solidarizou dela e dizia alguma coisa em voz baixa no seu ouvido, a mesma senhora completou:

“Também, vestida desse jeito, tá pedindo que mexam com ela e depois acha ruim”.

Pois, moça, você hoje deve ser uma mulher feita. Deve ter filhos e só lembrar daquele episódio esporadicamente. Espero que você leia isso, um dia. Espero que você se sinta representada por toda e qualquer pessoa que luta pelos seus direitos de não ser agredida por ser mulher. Espero que você não pense que o que você passou não representou nada pra ninguém, além de você mesma. Doeu em mim também ver tudo aquilo. Foi você que me fez começar a sonhar com um mundo onde todos dentro daquele ônibus ficassem do seu lado, te protegessem, chamassem a polícia e mandassem aquele calhorda pra prisão.

Mas o mundo tá melhorando, moça. Seu grito foi só o começo.

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