Desabafos de uma (quase) formada

Esses dias eu fui fazer um processo de seleção para uma vaga em uma empresa e me foram aplicados alguns testes. Um deles tinha várias questões matemáticas e dentre elas uma pedia para eu calcular a probabilidade de Ana pegar quatro bolinhas amarelas em uma piscina cheia de bolinhas azuis, vermelhas, verdes, etc. Quando eu vi essa questão duas coisas me passaram pela cabeça. A primeira era que Ana precisava parar de ficar tirando bolinhas da piscina. A segunda era: Sendo jornalista, quando eu usaria essa habilidade?

A verdade é que ultimamente eu tenho notado uma histeria coletiva dos vinte-e-poucos-anos que muito tem a ver com a forma em que aprendemos a lidar com nossas vidas, que se reflete na forma com que o mercado lida com seus futuros funcionários. Hoje, para entrar em uma empresa é preciso de no mínimo fluência em duas línguas estrangeiras, conhecimento e experiência na área, QI (o famoso quem indica) e saber quantas bolinhas Ana fica tirando da maldita piscina. Tudo isso antes ficar velho demais para o mercado de trabalho. É tanta coisa que nem Adaline, de “A incrível História de Adaline” daria conta.

O pior é que essa pressão não começa assim que saímos da faculdade, ela está presente em todos os processos de nossas vidas. Quando nascemos iniciamos uma corrida que largamos uma volta atrás de nossos adversários. Nada é no nosso tempo. Temos que aprender a falar e andar antes dos 2 anos, ler e escrever antes dos 6, até 13 anos se comunicar em duas línguas, aos 16 ter certeza de nossa profissão, aos 20 ter um futuro encaminhado e aos 27 já ter uma carreira de sucesso. Toda essa pressão nos levou a ser hoje uma geração de fracassados.

Não me levam a mal, não estou dizendo que nós falhamos. O que eu quero dizer é que traçamos metas tão surreais para nós mesmos, que é como se a frustração fosse uma parte importante de nossas vidas, não queremos nos livrar dela. Se não estamos frustrados com nossa posição na vida, significa que não somos ambiciosos o suficiente, que não queremos ir mais longe.

No auge dos meus 19 anos, eu já tinha toda uma vida traçada para mim. Meu plano era entrar para uma grande empresa de telecomunicações, e, caso esse plano não desse certo, nada mais me restaria e eu seria uma fracassada. Já naquela época eu acreditava que o ideal de vida era trabalhar em período integral, levar trabalho pra casa, ser viciado em café e não ter tempo. Eu lembro que às vezes eu não tinha nada pra fazer, mas só de dizer a frase “Nossa! Estou sem tempo pra nada”, já me dava um alívio e uma felicidade que me corria a espinha. Hoje, com 23 anos eu não entrei na empresa que queria, não formei, não tenho emprego, tenho tempo pra caramba e sou viciada em café.

Slow down you crazy child.

Não acredito que há alguém culpado por este fenômeno, mas os exemplos mirabolantes de pessoas que com 27 anos têm vinte graduações, dois mestrados, falam 4 línguas, já viajaram o mundo inteiro e ainda lavam a louça sem molhar a blusa, podem ser grandes responsáveis por essa frustração coletiva. Um amigo meu me disse um dia que o mundo podia ser dividido em dois tipos de pessoas, aqueles que foram à Disney e aqueles que não foram. Eu já acho diferente, para mim o mundo dos vinte e poucos anos é dividido em dois tipos de pessoas: aqueles que se orgulham por não terem tempo, mas são frustrados, em segredo, por não conseguirem administrar suas vidas e aqueles que são frustrados por terem tempo demais.

Nós somos iguais a Ana das bolinhas, perdemos nosso tempo tirando bolinhas da piscina, calculando probabilidades e nos esquecemos de que podíamos estar ali só brincando. Claro que eu sei que existem responsabilidades, contas pra pagar, comida pra colocar na mesa, mas o fato de que você agora não consegue comprar um carro ou falar alemão fluentemente não significa que você não é bom o bastante. A verdade é que no fundo ninguém é bom o bastante, alguns só sabem mentir melhor do que outros.

Minha dica não é para deixar as ambições de lado, nem se contentar com pouco. Quem me conhece sabe que eu sou feita de sonhos, ideias tortas e projetos inovadores (que nunca saem do papel). Mas, precisamos aprender que o desafio de viver está na tentativa e erro. Em vez de se sentir mal por não ter completado cinco graduações no MIT, se sinta bem por não ter derramado molho de espaguete na roupa. Seja grato por suas conquistas e, como diz Billy Joe, “Sonhe, mas não espere que todos os seus sonhos vão se realizar”.

Durante grande parte da minha vida as pessoas me perguntaram o que eu iria ser no futuro, agora o futuro chegou, eu ainda não tenho ideia do que fazer e eu estou muito bem com isso.