Pra não dizer que eu não falei das flores.

Tropa de choque dentro de uma escola técnica em são Paulo durante uma ocupação de estudantes reivindicando investigação contra um crime de desvio de verba da merenda escolar. Foto: Gustavo Oliveira

Em 1964, setores ultra-conservadores das classes militar e política se uniram para tomada do poder. “Era preciso salvar país de uma ditadura comunista”, eles diziam. E então, o governo eleito democraticamente do presidente João Goulart foi derrubado. Em um pronunciamento realizado na madrugada de 2 de abril de 1964, o senador Auro Moura Andrade declarou a vacância da presidência da república, alegando falsamente que Jango havia deixado o país. Em 2016, eles disseram que o impeachment da presidenta eleita democraticamente era a solução para nação. Então, grandes empresários dos setores industriais e de comunicações, além de políticos das alas mais conservadoras do legislativo federal se uniram para tomada do poder, enquanto a população ia às ruas contra uma possível “ditadura bolivarianista”. Mas as semelhanças não se limitam ao falso alarme da “ameaça vermelha”.

Em 1967, a Constituição foi mudada, o Congresso foi dissolvido e as liberdades civis foram suprimidas. Em 2016, na Câmara dos Deputados votações foram feitas e refeitas até que os resultados desejados pelo até então presidente da Casa, Eduardo Cunha, fossem atendidos. Os direitos das mulheres foram limitados e os direitos humanos foram gravemente feridos.

Em 1968, com o ato institucional V (AI-5), falar de política era um ato de subversão, o direito à reunião foi anulado e os movimentos sociais dissolvidos. Em 2016, uma juíza proíbe alunos da escola de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais de discutir sobre política nos pátios da faculdade, alegando vínculo político do Centro Estudantil aos movimentos de esquerda.

Em 1970, pessoas foram presas sem qualquer explicação e sem direito a Habeas Corpus, manifestar era crime político e censura era aberta. Em 2016 o Deputado Estadual Coronel Telhada, ex-integrante da polícia Militar de São Paulo, deu voz de prisão a uma jovem estudante que lutava pelo seu direito de manifestar contra o desvio de verba para a merenda escolar em uma ocupação da Assembleia Legislativa de São Paulo. O discurso de autoridade novamente punha-se presente: “ponha-se no seu lugar”, disse o parlamentar.

Em 06 de Março de 2016, em uma ocupação na Escola Técnica Estadual de São Paulo, 26 alunos aos gritos de “Não tem arrego! Você tira a minha merenda eu tiro o seu sossego” foram surpreendidos três carros blindados com dezenas de homens da Tropa de Choque que arrastaram os estudantes para fora da escola.

Em 1964 eles diziam que a mudança era a salvação do país. Em pouco tempo, as festas nos salões estavam proibidas, a censura era uma prática de rotina, os bens eram confiscados, as pessoas eram torturadas e mortas. Em 2016 eles disseram que seria pela família, por Deus e pelo povo brasileiro. Eles erraram em 1964 e continuam errando 52 anos depois

Por: Lígia Oliveira
Colaboração: Fábio Martins
Fotos: Gustavo Oliveira