E agora, Doutor?
Eis que depois de muito tempo volto a postar aqui no blog. Claro, terminado o doutorado me resta agora um pouco de tempo para viver. Não cheguei a comentar por aqui como foram os últimos capítulos desses infindáveis anos de pós-graduação, mas basta dizer que no fim deu tudo certo. Não quero perder muito tempo falando sobre isso.
Acho que também não cheguei a comentar por aqui mas tenho dado aulas como professor substituto na UFRJ desde outubro do ano passado. Sim, você leu certo: professor. Se você me conhece deve estar se perguntando: “WTF? Você? Professor???”. Isso porque ao longo de toda a minha vida acadêmica (e nisso eu incluo também a graduação) eu rejeitava de imediato quando me diziam que eu explicava bem e deveria seguir carreira acadêmica. “Vocês estão loucos!”, eu dizia, “tímido desse jeito, jamais daria certo!”.
Pois bem, o tempo passou, a bolsa acabou e eu tive que me virar com o que tinha. A oportunidade surgiu em um concurso com uma única vaga justamente para ensinar a minha matéria preferida. “Tá, vai. Talvez vocês tenham razão. Quem sabe?”, e lá fui eu.
Fui avisado da convocação faltando uma mísera semana para o início das aulas. “Vai dar ruim”, eu sentenciava. Eu não sabia o que fazer nem como, mas se meu doutorado me ajudou muito em algo foi me dando a clareza de como eu NÃO deveria ser. Sob hipótese alguma. Já era um bom começo.

As primeiras aulas foram tensas mas com o tempo fui me acostumando. Muitos dos meus alunos tinham idades relativamente próximas à minha. De alguma forma eu era capaz de entendê-los e vice-versa. Ao menos falávamos a mesma língua. O ritmo era muito cansativo: preparar na segunda a aula de terça, na terça a aula de quarta, na quarta a aula de quinta e assim por diante. Sobrevivi ao primeiro período. E no seguinte, seria só aproveitar as notas de aula do período anterior, certo? Sim, se eu não fosse um louco perfeccionista. Mudei a bibliografia e retornei à vida exaustiva mas gratificante.
A experiência enquanto docente me surpreendeu de forma extremamente positiva. Sofri uma grande transformação, desde a forma como me portava em público até a maneira de organizar melhor meus pensamentos, sempre muito difusos. Eu tenho uma certa dificuldade de prender minha atenção em algo por muito tempo e a docência me ajudou bastante a melhorar isso. Enfim, no final das contas eu já estava torcendo para que o dia em que o contrato fosse encerrado nunca chegasse. Mas ele inevitavelmente chegou. Hoje.

“Quer saber, porque eu estou triste? Eu sempre soube que cedo ou tarde esse dia chegaria. Além disso, esse nunca foi o meu objetivo. Na verdade foi um acidente de percurso”. “Eu nem sei ao certo se gosto da carreira de docente, afinal, só peguei a parte boa que é dar aulas”. Tudo isso é verdade, mas nesse momento me parece mais um monte de desculpas que me dou a fim de me auto-consolar. Sentirei muita falta de encontrar todos os dias com aquelas pessoinhas que me acolheram de braços abertos, sem preconceitos, sem prejulgamentos e que acima de tudo, sempre me respeitaram. Fico muito feliz de poder ter feito parte da formação de cada um deles e espero que tenha conseguido passar a ideia de que a vida é muito maior do que tudo aquilo ali.
Desde pequeno sempre ouvi o conselho de que eu deveria estudar para ser alguém na vida e segui à risca. Sempre dediquei muito tempo aos estudos, mas não por obrigação. Eu sinto prazer em estudar, sou um nerd de verdade. Mas não precisava ser tanto. Durante muitos anos eu abri mão de muitos momentos importantes de se viver, nunca podia sair, sempre tinha uma prova, um trabalho e assim, os meus melhores anos passaram. Hoje, tenho quase 30 anos, estive trancado na academia pelos últimos 10 anos e agora, saio com um diploma de doutor, sem experiência no mercado e não possuindo nenhuma habilidade rentável. Tenho comigo apenas uma ínfima parcela do conhecimento humano. Essa é a minha realidade hoje, bem como a de centenas de doutores recém-formados no Brasil. Apesar disso, recuso-me a encerrar nesse clima de depressão.

Já que a única coisa que tenho é o que aprendi, devo usá-la de alguma forma e assim o farei. Espero ter a oportunidade de receber para isso mas, caso isso não aconteça, vou vender parte do meu tempo para algo que me garanta a subsistência e no tempo que me sobrar, trabalharei no que acho importante: compartilhar esse conhecimento. Seja como voluntário em algum programa de apoio à pessoas carentes, seja na internet, atingindo o máximo de pessoas que me for possível, seja empreendendo. Enfim, a vida pra mim não acabou, pelo contrário, agora é que está começando. Nunca precisei de muito para ser feliz, não vai ser agora que isso vai mudar. E vida que segue!
Originally published at www.geekmera.com.br on July 12, 2016.