Um tempo Incomum.

Lipe Paes Monteiro
Aug 31, 2018 · 5 min read

Rodolfo tinha acabado de entrar na faculdade pública. Passou em um desses cursos de humanas que não vale a pensa ser citado para não gerar problemáticas e fugir do assunto. Típico da empolgação juvenil, começou a participar de diversos grupos, coletivos e sem se dar conta em quatro semestres já estava na areia movediça da militância. Negligenciou a procura por um estágio, deixou de participar das atividades extra curriculares e não se interessou por nenhum curso livre, afinal, lutar pelo país significava organizar passeatas barulhentas e debates estéreis. era de família média, estudar e trabalhar não significava muita coisa, a sua preguiça era clara nas redes sociais. “Revoltadinho”, de sarau em sarau, reproduzia o que ouvia dos outros militantes que com orgulho estavam quase sendo jubilados. A universidade era-lhe como uma experiência antropológica.

Certo dia, quando estava indo para sua primeira entrevista por indicação da tia bem articulada, esbarrou sem querer em Marta, deixando cair no chão a marmita da moça que trabalhava oito horas por dia em um loja no shopping e estudava pela noite em uma universidade particular graças a projetos sociais do governo. Sem pedir desculpas, Rodolfo sorriu amarelo e seguiu seu caminho perguntando-se como alguém hoje em dia ainda carrega marmita consigo. Sem reações a moça recolheu os plásticos e talheres, com um suspiro de aceitação. Naquele dia não teria almoço.

Marta pegou o ônibus lotado e em pé refletia sobre o egoísmo do mundo. ideologicamente ela só só conseguia acreditar em si mesma. Morava com a mãe e mais dois irmãos, era a mais velha e a primeira a frequentar um curso superior. “Marta, você está atrasada. O que houve?” disse a gerente. “Tive problemas com o ônibus.”, “Tudo bem bata seu ponto, o atraso será descontado no contra-cheque”. “Existem dias em que tudo dá errado.” pensou. Antes que tivesse tempo de refletir os motivos, uma cliente entra na loja e pergunta: “Existe dessa camisa tamanho M?, quero presentear o meu sobrinho, um rapaz de ouro, está estudando na federal e hoje foi para a primeira entrevista de emprego, com toda certeza será um ótimo profissional. Ele é a cara do futuro deste país.” “Sim, senhora eu tenho.” “Ótimo, vou levar.” disse a mulher sem olhar o preço.

Já passava das 14h quando Marta foi liberada para o almoço, encontrou Lia no refeitório, gerente super descolada de uma loja de moda, havia formado-se em design mas não seguiu carreira, encontrou no varejo a oportunidade de fazer o que mais gostava, dormir até meio dia e trabalhar com pessoas. Fora a primeira gerente a ter coragem de contratar uma mulher trans para ser vendedora o que lhe rendeu admiração e repressão entre a comunidade. “Menina, tu não vai comer nada?” “Ai amiga, se eu te falar que um menino esbarrou em mim e minha marmita caiu no chão e se abriu toda você acredita?” “Nossa o povo parece que vive no automático! venha coma um pouco aqui, divido a minha com você.” Envergonhada e grata, Marta aceitou de bom grado. “Como está a faculdade?” “Está corrido, ainda mais agora com mainha doente, fico preocupada.Pagar, faculdade, remédio, ajudar em casa…” “Mas, precisa se formar viu? Não deixe isso aqui te sugar não. Conheço muita gente que deu o sangue pra fazer crescer o sonho dos outros e esqueceu dos seus.Não caia nesse erro, pense em você, em sua mãe e em seus irmãos.” “Vou me formar sim, voinha fala pra todo mundo que a neta dela é estudada,não tem nem como.” “Isso mesmo! A porra louca aqui sou eu!” “E como está lá? Só se fala de você nesse shopping” “Tá indo né? Essa franquia é muito machista, diretor homem, CEO Homem, a gente precisa trazer a mudança de pouquinho em pouquinho. Por isso contrato quem precisa estar aqui, adoro o afronte, você sabe.” “Eu sei sim, você não perde tempo.” “Mas não fico nessa por muito tempo não, tô juntando dinheiro, quero conhecer a Índia!” “Nossa!” “Pois é, estou precisando de um tempo pra mim. Ver coisa nova, você sabe bem do meu fogo! Marta, preciso ir meu anjo, você está bem né?” “Tô sim ,obrigada.” “Olhe lá, termine essa facul viu menina? Quando eu for tomar glicose no carnaval quero ser atendida por você!” marta sorriu e seguiu para a loja a fim de terminar seu turno, o pouco que tinha na barriga havia lhe satisfeito, lembrou-se de quando era menor e em alguns momentos não tinha nada.

Eram 17:40h quando bateu sua saída e foi em direção ao ponto de ônibus para a faculdade, era um sonho poder estudar. O corre, corre e a gritaria na rua chamou sua atenção. Um rapaz debatia-se no chão e instintivamente Marta correu para ajudar, colocou-o de lado e imobilizou sua língua com a caneta até que melhorasse. O rapaz estava tendo um ataque epilético. Passado o tempo para recuperação, entre olhares curiosos e vídeos compartilhados, Marta levantou-se do chão da calçada e estendeu a mão para o jovem que mais cedo derrubara seu amoço. “Nos conhecemos?” ele perguntou. “Não”, preferiu responder. “Eu fui assaltado e depois disso não me lembro de nada, ainda estou um pouco tonto.” “Você teve um ataque epilético, precisa ir no médico ver isso, tome uma água.” Disse Marta lhe entregando sua garrafinha. “Obrigado” respondeu o rapaz. “Meu ônibus, se cuide.

Subiu no ônibus e aos prantos encostou a cabeça na janela questionando o motivo para tanta resiliência, sentia-se estranha em querer compreender as pessoas e ajudá-las. Em um mundo que não ensina a amar, pessoas boas podem sentir-se culpadas por serem quem são. Chegou um pouco atrasada, mas o professor não havia feito chamada, era aula de fisiologia, uma das que mais gostava. Pouco antes que a aula terminasse a coordenadora entrou na sala e disse: “Boa noite. Professor, preciso interromper um instantinho a sua aula. Pessoal, vim aqui dar uma notícia, saiu o resultado da bolsa integral para o curso de vocês e a pessoa com maior índice de presença, participação e nota foi Marta Souza. Parabéns Martinha!” Assustada e feliz com a notícia Marta era ovacionada pela turma.

Correu ansiosa para chegar em casa logo na porta gritava: “Mainha, mainha!”, “O que foi minha filha?” “Pode comprar aquela geladeira no crediário amanha, vou lhe ajudar a pagar! Ganhei uma bolsa integral na faculdade, agora todo dinheiro que eu ganhar vai ser pra lhe ajudar.” “Oh meu deus que notícia boa, fico tão feliz, você merece, eu passei o dia com um aperto no peito minha filha, achando que tinha acontecido alguma coisa ruim com você.” Mata abraçou sua mãe e descobriu de onde vinha tanta força. “E o almoço minha filha? Estava Bom?” “Estava maravilhoso como sempre mainha!

Lipe Paes Monteiro

Lipe Paes Monteiro

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Publicitário especialista em Gestão da Colaboração e Criatividade.