Primavera

Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Uma criança do outro lado da rua
Retira uma a uma as pétalas de certa flor
Convicta como um falcão que investe contra sua presa
Dilacera a pobre flor enquanto repete
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Enquanto ela o faz, silenciosamente assisto
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Me aproximo enquanto meus olhos se cerram e percebo: 
Não há criança nem flor
O que vejo então, é a vida a me arrancar as pétalas
Tão feroz quanto um homem, tão feroz quanto o mar.
Tudo que ela me diz agora é:
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Quero correr até perder os sentidos
Quero chorar até que desfaleça
Quero me arrastar ao chão
Rezo a Deus que me mate, não adianta
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Recordo-me: As pessoas parecem flores finalmente
Recomponho-me em frente ao meu funeral
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Mal me quer
Já não espero que a vida pare de me despetalar
Só quero que ao chegar meu fim
Eu possa escutar acompanhado de um leve sorriso da vida
Um doce e simples “bem me quer”.