good vibes

Liriz
Liriz
Sep 3, 2018 · 2 min read

O primeiro contato mais estreito que eu tive com a espécie foi numa viagem que eu fiz em julho. O inverno aqui não é no natal como nos filmes de hollywood. Aquela roupa pesava mais que eu. Eu não tinha ideia do meu futuro. O futuro para mim era o que eu já tinha. E só tinha uma faculdade, uns amigos de amigos e um quarto temporário.

Conheci a espécie e suas ramificações diversas. Uma diversidade limitada, homem branco, homem negro, homem periférico, homem burguês... Homens com a fala que era uma mistura de Charles Manson com um hippie de Woodstock. Eram bonitos e persuasivos. Andavam em bando, sorrindo, abraçando e contando histórias de como é mais inteligente viver como eles. Naquele lugar frio, ouvir que o amor vai salvar o mundo era muito atraente, mas eu já sentia um pequeno incomodo.

Eu, mulher, negra, periférica. Que sofro todo dia 1 ou 2 assédios nos 50 metros de casa até o ponto de ônibus as 7h da manhã. Que me achava feia pela minha cor e meu nariz até pouco tempo atrás. Que fui excluída dos espaços porque não tinha a roupa que era dita adequada. Que não tive acesso a cultura porque ela estava há 1h30, 2 ônibus e 50 homens de distancia da minha casa. E ainda tenho mil privilégios que me livram de outras coisas horríveis.
Mas eu não me reconhecia. E como que luta por algo que não conhece?

Convivendo com a espécie, percebi que o amor só existia se eu fosse boa moça. O amor só existia se eu fosse obediente. O amor só existia se eu ficasse bem quietinha aplaudindo. O amor só existia se eu aceitasse ser usada. Amor livre, para eles.

Aí passou o frio, o sol de Maceió queimava minha cabeça e eu me refresquei com lágrimas. Pude observar a espécie de longe e de outro ângulo. Movimentos suaves, passos para frente, olhando pro alto, pisando carinhosamente em quem parecia comigo. E essas, se algemavam na falsa liberdade, sem futuro, se deitando no chão e fechando os olhos. E o mundo caindo e queimando. E o disco de um homem brasileiro que fala de natureza como trilha sonora. E todos da espécie vendo e sorrindo.

Não, não é o amor que vai salvar o meu mundo.

    Liriz

    Written by

    Liriz

    Sobre o dia que eu pisei na terra.