“Como foi voltar? Queria ter ficado mais?”

Se eu ganhasse 1 real por cada vez que respondi essa pergunta nos últimos 40 dias com certeza já teria espantado a crise. A verdade é que ninguém ouviu o que eu realmente sentia, talvez porque eu mesma não soubesse explicar.

Voltar é como partir, mas ao contrário. (Jura, Lisandra? Nem imaginava…)

Explico: na partida eu tinha o coração cheio de expectativas, de vontades, de incertezas, mas sabia que seria muito bom. Na volta meu coração estava tranquilo, pensando apenas em terminar a faculdade, com a certeza de que encontraria tudo exatamente como deixei e um pouco perdida com a situação. Mas encontrar tudo como estava há um ano não foi reconfortante, pelo contrário, foi desesperador. Eu mudei, eu sou outra pessoa, tenho outras vontades, outros sonhos, outras formas de ver a vida. Parece que a vida aqui congelou enquanto eu estava fora.

Longe de mim pensar que sou o centro do mundo, mas quantos anos passam e todos falam “caramba, passou tão rápido” e daí mais um ano se passa e estão todos na mesma vida de sempre? E quando eu penso em quanta coisa eu vivi em um ano vem a angústia de saber que os próximos serão mais “pacatos”. Mas ao mesmo tempo me dá uma vontade de ter sempre mais e mais objetivos: viagens, estágios, cursos, passeios, o que seja. Estou viciada em ficar em movimento porque sei que se eu parar vou desabar.

Por outro lado, é bom rever as pessoas que compartilharam tantas histórias comigo e que mesmo de longe estiveram presentes nesse ano que passou. É bom revisitar os lugares, saber que no inverno também dá para ir à praia e que sempre terá um pão de queijo e um matte com limão me esperando em qualquer esquina.

Eu que sempre fui muito crítica e insatisfeita com a minha cidade, ao longo desse ano não consegui pensar nisso. Sempre que alguém falava do Rio vinha certo carinho, certa saudade, um sentimento de lar e uma vontade enorme de desconstruir estereótipos e preconceitos regionais que me irritam tanto. Mas e Milão? Milão foi meu lar também. Em Milão eu vivi uma vida em um ano, tive experiências inesquecíveis e conheci pessoas incríveis. Logo, posso dizer que meu coração não respeita limites territoriais, ele é onipresente. Tudo isso me fez pensar que se eu ficasse lá por mais tempo os sentimentos seriam exatamente os mesmos. O Rio teria a expectativa da partida e Milão teria o sentimento confuso do retorno.

Lembro-me do quanto eu chorei antes de partir e que chorei o dobro ou o triplo antes de voltar. O intercâmbio é uma grande experiência de desapego porque no final todo aquele ano precisa caber em duas malas de 32kg. E aí eu entendi que o mais importante desse ano é o que coube dentro de mim e isso é imensurável.

Aprendi a deixar coisas, pessoas, vivências, lugares, chocolates, cervejas e vinhos por lá. Aprendi que não são as coisas físicas que nos fazem ser quem somos, mas tudo aquilo que conseguimos carregar dentro de nós. E então eu agradeço. Sinto uma gratidão enorme por cada um que cruzou o meu caminho nesse tempo e por aqueles que estiveram sempre ao meu lado, por cada lugar que passei e cada lugar que carreguei dentro de mim quando parti, cada sabor daqui e de lá que ficou na minha memória e cada experiência que me tornou a pessoa que eu sou.

O que eu vivi foi um sonho, mas foi também um choque de realidade. Uma forma de sair da caixinha e perceber que esse mundão é muito maior do que eu pensava. O que eu vivi me ajudou a entender que ninguém é obrigado a passar a vida inteira fazendo a mesma coisa, morando no mesmo lugar ou convivendo com as mesmas pessoas. O mundo existe para ser descoberto.

Lar não é concreto. Lar é subjetivo. Lar é onde mora o seu coração.