Tenho uma ligação afetiva com a Gata Comeu. Na primeira exibição em 1985, eu tinha 11 anos e, como toda criança, queria fazer parte do clube dos Curumins. Apesar dessa atração infantil, estranhamente me interessava por quase todos os outros personagens. As suas histórias eram tão memoráveis e suas características tão marcantes que durante anos eu guardei com detalhes tudo o que ocorreu na história.

Em 2000, a novela foi reprisada no Vale a Pena Ver de Novo e eu cumpri a pena sugerida. Os personagens caricatos, as tramas esdrúxulas e o clube dos curumins continuavam lá exatamente como eu lembrava. Estava passando por uma fase esquisita na vida, recém solteiro, trabalhando apenas nos fins de semana, e o horário no meio da tarde era perfeito para aplacar minha monotonia. A vida interferiu e não pude vê-la até o final, mas assisti o que pude com muita satisfação.

No final de 2016, a novela me reencontrou novamente num período estranho. Tinha acabado de mudar de apartamento, trabalhava numa posição temporária maçante na qual me sentia deslocado e acabou que, graças as facilidades da Internet, consegui acompanhá-la na integra. O acidente da lancha, os náufragos na ilha, seu Oscar, dona Conceição, Doutor Penteado, Jô, Fábio, Ivete, Toni, o Conde, o cego falso e o clube dos curumins estavam lá exatamente como a minha memória tinha registrado. Só que, dessa vez, 31 anos depois da exibição inicial, eu finalmente consegui entender por que eu lembrava e gostava tanto de A Gata Comeu. Ela simplesmente é uma novela excelente. E por que ela é tão boa? Ela realmente conta uma história.

Ao contrário do que temos visto nos últimos anos, A Gata Comeu nos traz personagens que mudam e evoluem com caminhos definidos e claros; e não simplesmente uma cascata de acontecimentos que acomete personagens estáticos e estereotipados. Cada um dos personagens, desde os coadjuvantes até os personagens principais, tem um arco definido. Doutor Penteado precisa ser e se torna mais humilde; Jô precisa aprender a e consegue lidar com as figuras masculinas na sua vida; Zazá precisa ser e se torna uma mulher sexualmente liberada; seu Vicente tem que e consegue reconstruir uma família para seus filhos; seu Oscar precisa e consegue mostrar mais respeito pela família e pela mulher. No último caso, quase.

Todos os personagens tem grandes falhas e necessidades que precisam atender. São personagens humanos, críveis. Todos, a sua maneira, agem como protagonistas de suas próprias vidas, antagonistas uns dos outros e coadjuvantes dos demais. É possível, inclusive, isolar cada uma das histórias e contá-las como plots separados sem perder nenhuma graça ou interesse. Todas são histórias fascinantes. Além disso, ela consegue ter algo que poucas novelas tem: um tema.

A Gata Comeu gira em torno da falsidade. Jô finge querer se casar e abandona noivos a torto e a direito pois não sabe resolver o problema com seu pai; seu Oscar finge ser doente para não trabalhar e ficar paquerando na praia; doutor Penteado finge ser rico para manter o status; Vitório finge ser Conde para humilhar doutor Penteado; Zé Mário finge ser cego para cortejar Babi; Edson finge que a lancha quebrou para fugir da família; Paula finge gostar de Toni para casar com um homem rico. Todos os personagens, em maior ou menor grau, estão envolvidos como atores ou vítimas de uma farsa. E a resolução dos conflitos de todos os personagens passa justamente pela libertação da fantasia e pela aceitação da realidade. Enquanto isso, toda essa falsidade é acompanhada com espanto pelo coro representado pelo clube dos curumins que proclama a todo momento que “as crianças precisam resolver os problemas dos adultos”.

Não à toa, o clímax da novela reprisa, em forma de farsa, o seu evento catalisador: o acidente da lancha e o período em que os personagens principais ficaram náufragos numa ilha. Só a realização consciente do teatro da vida permite a libertação dos nossos personagens. Depois da resolução do plot principal, os personagens comemoram a sua libertação numa festa a fantasia em que brincam com seus próprios personagens: seu Oscar vai de malandro; dona Ofélia, a sogra intratável, se veste de diabo; doutor Penteado é o xeique acompanhado da sua esposa, como concubina; Gugu e Tetê se vestem como as crianças que são; e Jô está caracterizada como a apresentadora do circo que exibe toda essa fauna humana. Enfim, uma novela muito bem escrita com um tema humano e cativante.

É estranho não darmos a Ivani Ribeiro o valor que é dado à Janete Clair. Autora de tramas tão interessantes e pouco usuais, ela também é autora de Mulheres de Areia e A Viagem, a única novela em que torcíamos pela morte da mocinha. É importante resgatar e analisar os trabalhos de bons autores de novela que não são tão mais lembrados, como ela, Antônio Calmon e Cassiano Gabus Mendes. Especialmente agora que o modelo da telenovela está mais uma vez em crise e novamente sendo questionado.

Desde Dickens, até às web séries, passando pelas radio novelas, tivemos muitas alterações no modelo do folhetim. As mudanças pelas quais as novelas, como folhetim eletrônico, passaram para continuar como produtos rentáveis são visíveis ao assistirmos a uma novela antiga como A Gata Comeu. A velocidade era bem menor, o número de personagens idem, e o papel da música era mais preponderante justamente pelo rendimento que as trilhas de novela deviam trazer para o produto. Hoje temos uma gama e quantidade de personagens enorme, histórias mais neutras e pouco coesas e um product placement mais agressivo. É um modelo de atenção dividida que tenta atingir públicos mais amplos com menor profundidade e de forma mais politicamente correta mas, como estamos vendo, nem sempre funciona. O contexto do mercado e do público causa, com certeza, impactos nas estratégias dramatúrgicas. O modelo do gancho para o comercial, só pra pegar um exemplo, não é mais eficiente e é preciso trazer o anunciante mais para dentro da trama, tornando a novela claramente mais comercial.

Não estou defendendo aqui um Ars Gratia Ars, pois isso não existe. Há, óbvio, um processo para garantir a realização de uma obra tão cara, mas ele não deve definir o roteiro. Ele deve servir como condição de contorno e estimular os autores a trabalhar criativamente com essas restrições, ou melhor, os próprios autores poderiam gerar novos modelos narrativos considerando as estratégias de financiamento de suas próprias obras. Ao invés de tentar encaixar círculos em quadrados, os autores poderiam ter um olhar mais comercial sobre a sua própria atividade e gerar modelos inovadores tanto de estrutura como de financiamento artístico. A internet está aí pra facilitar isso, mas esperar isso dos nossos autores já é sonho.

Numa época em que pagamos mais, sim, pelo entretenimento, a novela como produto de TV aberta precisa mudar. Experiências tem sido feitas com a duração, no horário das 11, com públicos diferentes, nas 7, esteticamente, no horário das 6, e nos temas, nas novelas da Record. Não sabemos como isso será no futuro, mas precisamos começar a imaginar um tempo em que o horário nobre da TV não seja mais ocupado pelas novelas. Senão corremos o risco de ter apenas os programas evangélicos no horário como já ocorre nos canais que não as apresentam.

Crise é momento de virar a mesa e para mudar precisamos olhar para o que deu certo no passado tanto comercialmente como artisticamente. A Gata Comeu é um produto de sucesso em ambos os casos. Boa parte do mérito disso vem da sua autora. Pra mim, fica claro que essa é uma crise dos autores também. Eles talvez tenham que se tornar menos grifes e mais experimentalistas, deixando a sua obra falar por si ao invés de aderir aos esteriótipos que foram criados em cima deles mesmos. Hoje, por exemplo, quando falamos de um autor, já sabemos como será a sua trama e o estilo estético e da narrativa. É um pouco triste que as novelas e seus autores sejam vendidos pela familiaridade e pelo cumprimento de expectativas e não pela surpresa e pelo ineditismo.

Se há uma crise na tele dramaturgia, tenham certeza, ela começa na postura e no trabalho dos seus autores e, portanto, está na conta de nós, escritores, criar essas soluções. Caso contrário, os departamentos de marketing irão, mais uma vez, empurrar modelos publicitários pelas nossas goelas. E essa história já conhecemos como termina.

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