Quase toda a noite, perto da hora de dormir, a minha filha quer brincar de Mau. Conhece? Não?! É assim que ela explica:

– Eu sou o Bom. Eu vou pegar um brinquedo e finjo que vou dormir. Aí você é o Mau e tira o meu brinquedo. Depois eu sou o Mau.

É uma dinâmica interessante. A ação do Mau “contra” o Bom pode ser agressiva, dissimulada, manipuladora ou simplesmente caótica. A reação do Bom também varia. Revolta, medo, tristeza, negociação. Vale de um tudo nessa brincadeira. E não há motivo para ser Mau, nem Bom. Apenas os somos. É exatamente assim que me sinto quando vejo Billions. Me sinto assistindo a uma brincadeira de Mau.

Billions é uma série da Showtime que nos põe no meio do conflito entre o promotor de Nova York, Chuck Rhoades, vivido por Paul Giamatti, e o bilionário Bobby “Axe”, interpretado por Damian Lewis. É uma série rara. É uma série com dois protagonistas e dois antagonistas. É uma série que escapa à dicotomia do bom e do mau. Os personagens principais, assim, como minha filha brincam continuamente de mau, sem a narrativa pender a favor nem de um nem do outro.

Como não podia deixar de ser os personagens são espelhos. Chuck, o promotor, vem de dinheiro antigo, joga no limite das regras sempre as dobrando ao seu favor. Axe é um self made man, sempre encontrando as brechas que lhe permitem tirar o máximo de ganho. Ao contrário de conflitos tradicionais, não há um objeto que os dois desejem. Eles apenas querem mostrar a superioridade sobre o outro e vencer essa luta que ninguém lembra quem começou.

Em diversos momentos, são mostradas aos dois personagens opções para abandonar a disputa, mas eles se negam a parar de lutar. Continuam firmes no seu desejo de destruir um ao outro. Um pissing contest genial que mostra que, apesar de serem opostos, os personagens são iguais. Os dois são bullies.

Chuck é o Bully nerd com a cabela enfiada nos livros se preparando para a próxima briga de moral. Axe é o Bully marginal com sua camiseta do Mettalica esperando a próxima vítima dos seus insultos.

O incrível é que isso quebra um dos maiores tabus da dramaturgia: ter um protagonista pelo qual possamos torcer. Aqui temos dois que amamos e odiamos a todo momento.

O recado de Billions para nós roteiristas é que não precisamos de heróis. Precisamos de conflito. Taí uma lição que a indústria do cinema, tão empobrecida de idéias que depende de SUPER heróis e SUPER vilões para sobreviver, deveria aprender. Uma lição que está em Édipo, Othelo, Ricardo III. Uma lição que foi abafada pelo moralismo do Irmãos Grimm e pela ganância de Walt Disney que transformaram a ficção numa fábrica de lições de moral. Ficção não é isso. Ficção não é redenção. Ficção é desejo, conflito e emoção. Ficção é brincar de Mau. E brincar de Bom. Sem lições de moral. Só pelo prazer de podermos trocar de papéis e agirmos como somos. Humanos. Bons e maus. Ao mesmo tempo.

Ah, eu te disse pra assistir Billions? Não? Então, vá lá assistir. Agora.

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