monotonia
Tô atrasada. Vesti aquela roupa que estava pendurada na cadeira há dias. Peguei umas moedas que estavam espalhadas na mesa, minha mochila e entrei no elevador. Lá dentro lembrei que nem lavei o rosto. Deixa, ninguém vai perceber. Ninguém vai perceber que eu mal preguei o olho essa noite. Entrei no metrô. Tinha lugar pra sentar. Acho que o dia não vai ser tão ruim, afinal. Tenho aula. Queria estar em qualquer lugar menos aqui. Professor, você fala muito rápido sobre sei lá o que. Dá um tempo. Preciso processar. Ninguém aguenta mais esse cursinho. Acabei cochilando na aula de física. O professor brigou comigo no corredor. Ia sair mais cedo da aula. Esqueci. Tô atrasada. Fui para o metrô e precisei esperar outro. Muito cheio. Claustrofóbico. No meio dessa pressa toda, eu vi você. Pensei em dizer oi. A porta fechou. Passei o caminho inteiro metaforizando quantas portas se fecharam para mim nos últimos anos. Quantas coisas vou continuar perdendo se eu não tomar as rédeas da minha vida. Deixa pra lá. Tô atrasada.
