2. Não-Guia da Mochileira da Fronteira

Fazer as malas é uma arte (que eu não domino)

Lis
Lis
Aug 25, 2017 · 3 min read

Agarrada na moto, eu cambaleava. Pedi pro moço ir devagar, eu nunca peço isso. Mas parecia que eu ia cair a qualquer momento, total desequilibrada que sou. Vi minha vida passar diante dos meus olhos numa freada. Com o coração a mil, porém resignada, pensei que nunca chegaria ao meu destino, que a qualquer momento eu cairia bem no meio da pista e seria atropelada. Lembrei da história de um cara que morreu caindo do moto táxi na ponte da amizade.

Depois de uns quinze minutos de tortura, por incrível que pareça, cheguei. Levando mala de rodinhas, mochilão e violão.

Tava uma muvuca. Muita gente, muita bagagem, muita mercadoria. Identifiquei minha companheira de viagem e a cumprimentei, toda atordoada. Num forte contraste, ela levava apenas uma mochila, nas costas.

Justiquei meu atraso mostrando e contemplando os arranhões nos braços. Mas como assim você caiu da moto parada?, ela perguntou rindo e eu sabia que não seria a primeira.

Ficamos esperando pra ver se, àquela hora, tão tarde, conseguiríamos uma cota para levar. Eu já torcia para que não desse certo, não via a hora de voltar pra casa e eliminar aquela mala, no mínimo.

Para minha sorte e alívio, não rolou. Voltei pra casa de ônibus, levando milhões de bagagens, e a cena mais dolorida foi quando fiz força com o braço direito pra subir e descer do ônibus com as malas.

Cheguei em casa destruída, derrotada e com muita dor. Essa hora, a adrenalina já tinha passado, o sangue já tinha esfriado e eu tive que encarar uma dor infernal no braço que eu já nem conseguia mexer. Tive que imobilizar, sério.

Tomei uns remédios pra dor, mas ela persistiu no dia seguinte. Fiquei preocupada e fui pro hospital, sozinha. Eu levo aquilo de “não querer incomodar” aos extremos (e bem por isso me fodi caindo da moto). Fiz o raio x e aparentemente não tinha nada fora do lugar. O médico me receitou Dipirona e mais um outro que eu esqueci o nome (não comprei) e disse que era pra procurar um orto se não melhorasse.

Registro não correspondente: única foto que mostra a faixa que eu tava usando pra imobilizar.

Passei o dia com o braço imobilizado e tentando não me mexer, enquanto refletia sobre minha falta de talento em fazer as malas. Pensando no que eu poderia eliminar. Tudo parecia importante demais pra uma viagem de, esperançosamente, longa duração. O jeito foi tirar shorts e casacos em excesso e minha câmera.

Transformei a malinha de rodas numa mochilinha, agora contando com a ajuda da minha irmã, porque eu nem conseguia mexer nas malas sem sentir dor.

Ela disse que eu talvez deveria esperar um pouco mais, me recuperar. E eu pensei se isso tudo não era um sinal do universo pra eu desistir.

Mas. Como. Eu. Sou. Teimosa.

Dois dias depois, lá estava eu, de braço imobilizado, pronta pra colocar os pés na estrada.

Mas “pronta” a gente nunca está.

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