Até que o alarme nos separe

São quase três da tarde de uma quinta-feira e eu escrevo com culpa porque, a essa hora, eu deveria estar “ocupada” sendo “produtiva” em vez de aqui, com meus devaneios, nessa insistente mania de questionar por que as coisas são como são. Devaneios esses constantemente interrompidos pela culpa materializada no meu computador meio quebrado. Obsolescência programada. Preciso de dinheiro para arrumar ou comprar outro. Porque eu fui convencida de que preciso dessa tela para despejar minhas angústias, geralmente falo de amores frustrados, me distraio, mas o que realmente me corrói é essa pressão pra ser qualquer coisa que não eu. Qualquer coisa com crachá, carteira assinada e uma quantidade suficiente de números pra dizer que eu tenho sucesso, tirar uma foto e publicar pra você ver da sua tela na qual você se esconde pra não me olhar nos olhos. Sei bem. Eu também morro de medo que você me olhe e veja que eu morro de medo. E que, assim como você, até sei de onde vim, mas não sei pra onde vou, se é que vou chegar em algum lugar. Hoje li Galeano, dizia que utopia serve pra isso, pra que não deixemos de caminhar. Mas quem é que tem tempo de pensar pra onde caminhar se já são dez pras oito e o alarme não para (e berra dessa tela que dorme do seu lado e sabe mais sobre você do que a última pessoa com quem você dividiu a cama)? Quem sabe um dia eu tenha a sorte de J. K. Rowling e escreva um best seller que me salve da servidão dos relógios, e você, como Rihanna, seja descoberta e cante pra alguém mais que seu sabonete com o qual você se esfrega com pressa porque a tela grita e avisa, o tempo não para e a gente já tá quase se esquecendo do Cazuza. Queremos, como ele, perecer inesquecíveis, mas quem é que vai ler o que eu escrevo ou te ouvir cantar se tá todo mundo com pressa no intervalo do almoço, ou no trajeto de ida e volta que se faz com má vontade rolando a tela pra baixo, vendo fotos de sucesso e felicidade. No fim a gente se convence que até que tem sorte por sermos meros anônimos em pé no metrô, a saúde em dia para resistir (ainda bem, porque eu tô sem plano e sem grana pra bancar um tratamento). Tempo? Tenho nem pra me revoltar; que meu tempo já foi prometido, fichado e vendido. Melhor deixar os sonhos para o travesseiro até que o despertador (que sabe mais sobre você que eu e ela ou ele) nos separe.


Continua…

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