I. Desvairada Francine pede um pastel

Francine girou a chave com apenas uma certeza: aquela seria a última vez. Ensaiou tanto essa solitária despedida que, quando chegou a hora, nem parecia real. Já do lado de fora, deu uma última olhada pela janela. Queria memorizar a disposição dos móveis e de cada detalhe da sala, para manter as boas lembranças vívidas. Elas existiam, afinal. E se dava pra ver tanta coisa assim, pela janela, era porque ela tinha esquecido a cortina aberta. “Mas foda-se”, pensou.

Levou a chave até o esconderijo de sempre e sentiu o estômago roncar. Já passava da uma da tarde e estômago nenhum sobrevive só com café, lágrimas e unhas roídas. O sol forte fazia Francine penar sua decisão. Podia ficar um pouco mais, sair quando o sol estivesse se pondo, sei lá. A gente sempre pode ficar um pouco mais.

O estômago reclamou mais uma vez, interrompendo o devaneio, o que fez com que Francine desse o primeiro passo para longe daquela casa, daquelas vidas. Foi até uma lanchonete a algumas quadras dali e pediu um gorduroso pastel de carne. A minúscula TV exibia um daqueles absurdos jornais locais que atualizam a população sobre os últimos crimes violentos e corpos encontrados misteriosamente. Duas senhoras, na outra mesa, comentavam as notícias, parece que conheciam uma das vítimas. Ou dos acusados. A conversa não era muito conclusiva.

Na tentativa de não se deixar absorver pelo clima pesado e de apreciar seu almoço, Francine virou as costas e ficou olhando para a rua. Muita gente passando o tempo todo, carros, motos, bicicletas. O mundo tem infinitas possibilidades e a gente perde tempo com quem não nos faz bem. Mas “bem” é um conceito muito relativo, vale lembrar. Esse pastel gorduroso, por exemplo, poderia facilmente atacar a gastrite de alguém. Mas Francine não tem gastrite — nem medo de tentar.

Não se sabe se foi o clima pesado, o calor, o noticiário mórbido ou a gordura do pastel que fizeram com que Francine ficasse enjoada. Precisou correr até o banheiro, só deu tempo de levantar a tampa do vaso e mirar: vomitou até esvaziar o estômago. O vazio ela conhece bem.

(…)

Parte 2

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