I. Não-Guia da Mochileira da Fronteira

Antes do auge, a queda

Lis
Lis
Aug 8, 2017 · 3 min read

Preciso começar do começo. Mas toda vez que eu penso qual é o começo, eu chego num novo começo: o começo que veio antes do outro começo, que veio antes do um começo, que…

Vou focar no começo físico. Bem físico: começou dando errado. Minha vontade de pegar tudo e partir era tanta que levei coisas demais. Enchi um mochilão e uma mala de rodinhas (!), peguei meu violão e saí correndo, quase literalmente. É que havíamos, eu e minha travelmate, conseguido uma cota de última hora, no ônibus de última hora, pra chegar em São Paulo sem pagar nada.

Quê?!

Da minha cidade, Foz, pra São Paulo, todos os dias, tem uns ônibus que levam mercadoria do Paraguai. Tudo meio que legalize, eles dividem a mercadoria entre os viajantes, cada um leva algo dentro da cota máxima de dólares por pessoa. Aí, eles pagam sua passagem, e você chega em São Paulo de graça.

Pra conseguir pegar esse ônibus, resolvi ir, da minha casa até o ponto, de moto táxi — um meio de transporte que não existe em todos os lugares, então explico: é uma opção mais rápida e mais barata que um táxi, numa cidade que não tem Uber. Os caras são até uniformizados, algumas motos são amarelas com quadradinhos pretos, bem padrão táxi.

Imagem meramente ilustrativa.

Já passava das cinco quando saio de casa. Uma das meninas que mora comigo, a única que estava em casa nessa hora, me pergunta:

- ???
- Tô indo pra São Paulo.
- Como?
- De Transmuleke.
- Essa hora?
- É, consegui uma cota, tenho que ir correndo!
- E como você vai até lá?
- De moto táxi, oras. (oras!)
- Levando tudo isso?
- É. Cabe. Tchau!

Vou até a moto com toda a afobação do mundo de quem tá atrasada como sempre e, no que eu tô subindo, carregando não sei quantos quilos, um violão e uma mala, sinto o peso nas minhas costas me puxando pra baixo.

Em. Câmera. Lenta. Não sei se falo em voz alta ou só penso “acho… que… vou… caiiiiiir…”.

POW. Empurro o chão com o braço, o cotovelo, eu sei lá mais o que é o que, pra me proteger da inevitável queda.

O moço me pergunta se eu tô bem, um outro cara que passava pela rua surge me ajudando a me levantar. Fico zonza, sentada no chão, minhas coisas espalhadas pela rua. Depois de muitos “ais”, só consigo dizer:

- Acho que foi um sinal.
- Deixa que eu te ajudo com as coisas.
- Acho que foi um sinal. Pra eu não ir. Né? Acho que não dá.
- Dá sim!
- Acho que não consigo fazer isso.
- É só eu levar aqui na frente assim, ó. — ele disse, já ajeitando as coisas na moto.

Se a queda era um sinal pra não ir, o entusiasmo do moço (que não queria perder a corrida) parecia ser um sinal pra ir, sim. Do tipo: isso aí foi só pra testar sua fé. Achei positivo ele não me julgar por estar levando tanta coisa e nem fazer perguntas, apenas dar uma solução rápida. E fui.


Fatos incontestáveis: estou realmente fazendo um mochilão. E escrever sobre é uma delícia, mas demora. Obrigada por ter lido! Se você quiser que eu continue escrevendo, me deixe saber aqui. Aí eu te aviso quando publicar a continuação! ;)

Lis

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Lis

mais uma imperfeita aprendendo a ver a beleza das imperfeições.

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