II. Desvairada Francine parece que sente

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Francine limpou a boca e nem ficou constrangida. Era muita revolta pra pouca paciência. Muito ‘foda-se’ pra pouco ‘tudo bem’.

Bzzzzz, bzzzzz — vibra o celular de Francine. Lá vem ela. Parece que sente!

“E aí, sininho? Vamos pedir japa pra janta?”, dizia a mensagem de um número desconhecido que Francine sabia de cor. Puta que pariu, japa seria perfeito.

Bzzzzz. Mais uma, dessa vez acompanhada de emojis com cara de preocupação. “P.s.: Você tá bem? Tô sentindo uma vibe…”

Parece. Que. Sente.

Francine foi pagar a conta e pegou um chiclete de menta pensando em qual seria sua resposta, se é que responderia mesmo. Saiu dali direto pro sol escaldante, que lhe deu tontura. É psicológico.

Enquanto retomava o fôlego e a coragem, colocou um som bem alto nos fones de ouvido pra não pensar em mais nada. E pulou de música. Essa lembra Dulce, a autora das mensagens. Próxima. Putz. Essa também. E a outra. Provavelmente todas. Desistiu.

Em silêncio mesmo, pegou o primeiro ônibus com destino ao apartamento que praticamente havia abandonado. Tinha lugar na janela e duas mochileiras cantavam e tocavam violão (muito bem, é importante frisar).

Três músicas depois, Francine já se sentia melhor. Ouvir músicas diferentes e ainda mais tão inesperadamente num trajeto comum é revigorante. Novas memórias e a constatação de que a vida tem dessas surpresas boas dá esperança. E essa música sobre se molhar na chuva é cativante.

Porque só o que pode acontecer é os pingo da chuva me molhar.

Nisso, uma das cantoras, já expert na arte de arrecadar grana para seguir viagem, passou com um chapeuzinho pedindo colaborações e conversando com os passageiros. Ótima lábia.

Mas, ao chegar perto de Francine, mudou de expressão. De alegre e meio vendedora para curiosamente chocada. Um choque que não dá pra entender se é bom ou ruim. Chegou bem perto e disse:

-Sua vida vai mudar muito mais do que você imagina.