Sobrescrever

Eu encaro esse cursor piscando sabendo que algo precisa sair de mim, mas sem saber o quê. Uma parte de mim, sabe, é claro. Mas não essa camada da superfície que toma a decisão de encarar o cursor piscando e apertar letra por letra. Tec tec. Adoraria poder fazer isso numa autêntica máquina de escrever, sujando e prendendo os dedos nas teclas e fazendo barulho de verdade. Mas isso é pura vaidade. Eu tenho uma vaidade que não se sacia com roupas caras. Minto. Nem sei o que é ter roupas caras pra saber se minha vaidade assim saciaria. Acho que o dinheiro nada sacia. Mas distrai. Só acho, porque também não sei o que é ter tanto dinheiro para gastar com vaidades até (tentar) me saciar. E um dos motivos pelos quais eu não sei o que é ter muito dinheiro é porque eu tenho essa mania de encarar o cursor piscando e, quase com raiva, digitar letra por letra por letra por letra até alguma verdade trancafiada se libertar e sair de mim. E me sentir mais leve por alguns instantes, até perceber que isso não muda nada.

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