Lua de Ferro: os operários chineses que escrevem poesia em seus celulares

Tradução Livre de “The Chinese Factory Workers Who Write Poems On Their Phones”

É difícil imaginar um lugar no planeta em que se tornar um poeta seja uma estratégia sagaz de carreira, mas isso é especialmente verdade para os mais pobres e desprivilegiados que tentam se manter de pé nas frenéticas zonas econômicas especiais da China.

Nos últimos anos, uma enxurrada de documentários vem expondo as dificuldades dos trabalhadores que migram do interior para os grandes polos chineses; mas o filme de 2015, Lua de Ferro (tradução livre), chama a atenção para uma figura bastante específica: o trabalhador migrante poeta. O documentário acompanha vários jovens escritores que lutam contra o preconceito econômico e cultural, e tentam sublimar jornadas de 14 horas nas linhas de montagem em linhas poéticas. Nós assistimos ao gentil jovem Wu Niaoniao andando de estande em estande no vasto Mercado de Empregos do Sul da China, em Guangzhou, perguntando a respeito de cargos editoriais nos jornais das fábricas. Com a familiar mistura de fatalismo e esperança que permeia a poesia dos trabalhadores migrantes da China, ele lê um poema e espera pelas respostas com um sorriso embaraçado.

“Eu sei que vocês jovens querem seguir seus sonhos, mas…” diz um recrutador cínico, sem terminar a sentença. Um outro espreita por sobre seus óculos e questiona “mas o que você faz? Com estudo você pode ganhar muito dinheiro. Sem estudo você não pode fazer negócios, entende?” Um outro recrutador simplesmente pergunta se Wu nunca considerou escrever coisas que fossem um pouquinho mais otimistas.

“o risco do passado era que homens se tornassem escravos. O risco do futuro é que homens possam se tornar robôs.” (Erich Fromm, 1956). Cena de Iron Moon.

Atualmente, o mais famoso trabalhador migrante poeta é Xu Lizhi que, aos 24 anos, cometeu suicídio em 2014. Ele trabalhava na cidade de Foxconn, a mega-fábrica em Shenzhen, famosa não só por manufaturar todos os nossos produtos da Apple, mas também pela torrente de suicídios em 2010 que expôs o sinistro mito da oportunidade e da mobilidade social nas linhas de montagem: “Morrer é o único jeito de atestar que um dia vivemos,” escreveu um blogueiro da fábrica. (A Foxconn subsequentemente construiu uma rede, não para prevenir o desespero, mas o número crescente de mortes.) Quando Xu se jogou do 17º andar de um prédio quatro anos mais tarde, tendo publicado a maior parte de seu trabalho online, não foi sua morte que fez as manchetes, mas sua habilidade como poeta. A revista Time publicou sua breve história de vida junto com seu trabalho, sob o título: “O poeta que morreu pelo seu telefone.”

Este mês, será publicada a primeira antologia traduzida (infelizmente, por enquanto, apenas para o inglês) dos trabalhadores migrantes poetas para acompanhar o documentário, ambos organizados pelo poeta e crítico Qin Xiaoyu. Habilmente traduzida por Eleanor Goodman, a coleção inclui o trabalho de 31 poetas (selecionado dos mais de 100 da edição chinesa). Cada um deles oferece evidência concreta de que o mito da mobilidade social foi derrubado: eles estão conscientes de sua própria exploração e das buscas econômicas que corrompem os valores humanos. Desde meados da década de 90, sua experiência de impotência tem fortificado sua literatura com honestidade e uma nova força intimidadora. A antologia também é chamada de Lua de Ferro, uma metáfora visual retirada de um dos mais conhecidos poemas de Xu Lizhi’s.

Eu engoli uma lua de ferro

eles a chamaram de parafuso

Eu engoli os resíduos industriais e os formulários do desemprego

curvada sobre as máquinas, nossa juventude morreu jovem

Eu engoli trabalho, eu engoli pobreza

engoli pontes de pedestres, engoli esta vida enferrujada

Eu não consigo mais engolir

tudo o que eu tenho engolido me sobe à garganta

Eu espalho pelo meu país

um poema vergonhoso

Considerando a primazia da lua na poesia chinesa clássica — como uma imagem de solidão e romance — conectá-la ao ferro, diz Goodman, conjura “uma colisão frontal da cultura chinesa tradicional com uma explosão de capitalismo, de humanidade com mecanização, de romance com um mundo arromântico — ou seja, um amálgama de extremos. E esses poetas estão lidando com isso muito conscientemente.” Eles estão usando a poesia, a forma de arte clássica mais valorizada e estimada na China para contrapor a experiência brutalizante da modernidade.

cena de Iron Moon

Zheng Xiaoqiong, uma das mais refinadas poetas da coleção, fundou sua própria e distinta “estética de ferro”, uma metáfora flexível e peculiarmente expansiva para transmitir uma vida impiedosamente dura e fria. Tendo trabalhado por anos em uma fábrica de molde e matriz e como operadora de perfuração, fica claro desde as linhas iniciais de “Linguagem” o quão perfeitamente ela compõe a simbiose física e intelectual entre homem e metal:

Eu falo esta linguagem oleosa e pontiaguda

de ferro fundido — a linguagem dos trabalhadores silenciosos

uma linguagem de parafusos apertados, as ondulações e memórias de chapas de ferro]

uma linguagem feito desafortunada clamante feroz calejada

ferida e faminta linguagem, pagamento retroativo das doenças ocupacionais do rugido das máquinas]

linguagem de dedos cortados linguagem fundamental da vida no escuro do desemprego]

entre as úmidas barras de metal, essas linguagens

…….. Eu as falo suavemente.

Há ainda nos poemas outros sub-textos: a nostalgia por uma vida não aproveitada, a futilidade da linguagem (“nós não suportamos colocar nossas lágrimas e dor em nossas cartas… Os espaços em branco dos anos” escreve Xie), um luto por partes do corpo perdidas e suas juventudes truncadas: “Meus melhores cinco anos foram pela entrada do alimentador da máquina,” Xie adiciona. “Eu assisti esses cinco belos anos de minha juventude saírem / do cu da máquina — cada um transformado em um brinquedo de plástico elíptico.”

Eles trabalham horas infernais sem segurança do trabalho, bebem água de rios onde eles veem serem despejados químicos e poluentes, inalam ar degradado por gases venenosos. Se arriscam a ferimentos por máquinas vampíricas e impiedosas que consomem não apenas sua juventude, mas também partes de seus corpos (em 2005 foram estimados 40 mil incidentes de dedos cortados por ano somente nas zonas econômicas do sul da China). E eles encontram tempo fora de suas jornadas de 14 horas e espaço em seus dormitórios abarrotados para se dedicar, escrever sobre suas vidas, e publicar online usando um telefone celular básico (dos muitos fóruns que eles usam, o mais compreensível é a Aliança da Poesia Laboral www.laborpoetry.com.)

Como Goodman ressalta, eles enfrentam não apenas a discriminação enquanto trabalhadores não-qualificados, mas também precisam lidar com “um profundo preconceito de que alguém sem educação formal não possa escrever poesia.”

pai de Xu Lizhi tocando um instrumento cujo som se assemelha ao do violino. Cena de Iron Moon.

Esse é um discurso inconscientemente internalizado em todos os níveis. Até mesmo pelo pai de Xu Lizhi’s que, ainda em luto pela morte do filho após três anos, tem pouca fé na capacidade da poesia de mudar as vidas das classes mais baixas — espiritual e economicamente: “Se isso [a morte dele] não tivesse acontecido,” diz ele em meio a lágrimas no documentário, “nós não saberíamos que ele escrevia poesia. Mas eu não acho que haja qualquer futuro na poesia. Não se compara à ciência ou à tecnologia. A poesia foi importante nos tempos da dinastia, quando era parte do exame para serviço civil… Você podia ser um oficial se escrevesse boa poesia. Mas a sociedade mudou muito. Não é que eu não o apoie mas, no mundo de hoje, se você não tem dinheiro ou poder é realmente difícil.”

Os escritores mais “intelectuais” da vanguarda chinesa, como Mo Yan, Su Tong, Yu Hua, e Can Xue se voltaram para um surrealismo kafkiano ou o realismo fantástico para abordar temas espinhosos. Por outro lado, lendo Lua de Ferro, você se dá conta do quão íntimos e pessoais esses jovens escritores migrantes podem ser. Suas micro-narrativas de mecanização, na auto-identificação com parafusos, pregos, rochas descartadas, átomos de sujeira, se reúnem em um poderoso coro. Eles oferecem uma conexão mais profunda e significativa entre a grandiosa narrativa de prosperidade econômica e as histórias não ouvidas de milhões que sacrificam sua saúde, sua juventude e sua sanidade em nosso benefício.

Uma das poetas mais esperançosas e inclinadas ao perdão é Wu Xia, cuja benevolência desarmante em relação aos beneficiários do seu trabalho é desoladora:

Eu quero alisar as alças

para que elas não enrosquem em seus ombros quando você as vestir

e então pressionar a partir da cintura

uma adorável cintura

Para que alguém pouse a mão elegante

e na trilha sob a sombra de árvores

acaricie um silencioso tipo de amor

Por último eu vou amaciar o vestido

passar os plissados e igualar as larguras

para que você possa se sentar à beira de um lago ou sobre um gramado

e esperar pela brisa

como uma flor

O próprio ato de escrever esses poemas é satisfatório, um caminho para aqueles sem voz compensarem o distanciamento que sentem um do outro, de seu trabalho, das coisas que eles produzem, e reclamarem de volta seu próprio senso de humanidade. Os poemas também oferecem uma oportunidade para que não apontemos os dedos preguiçosamente para os abusos de direitos humanos na China, mas que reflitamos acerca de nossa própria cumplicidade no sofrimento desses trabalhadores. Seu comprometimento eloquente com a poesia nos oferece um outro modo de compreender o custo da mão-de-obra que se estende tão além da fria e insensível economia.

Iron Moon: An Anthology of Chinese Migrant Worker Poetry

Trailer do documentário Iron Moon


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