Não por acaso estamos viciados em nossos celulares

LSRK
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Aug 24, 2017 · 6 min read

Traduzido e editado a partir de “ It’s No Accident We’re Addicted to Our Devices”

Provavelmente nunca houve uma população tão grande de viciados como há agora. Nós não conseguimos tirar os olhos de nossos celulares, tablets e mídias sociais por mais do que alguns minutos sem nos sentirmos ansiosos; casais mandam mensagens entre si de quartos diferentes da mesma casa, enviando-as para os satélites ao redor do mundo e depois de volta, para apenas alguns metros de distância. O que há de errado conosco? De acordo com o antigo gerente de produto do Google, Tristan Harris, isso não simplesmente aconteceu — já há algum tempo, os programadores têm deliberadamente jogado com a forma como nossos cérebros operam para nos transformar em viciados. Ele chama isso de “corrida à base da haste do cérebro¹”.

Conversando com Anderson Cooper para a CBS News, Harris explica que isso também é chamado de “hackeamento de cérebro”². Esse é o segredinho sujo do mundo tecnológico. Se você se lembrar daquelas antigas histórias sobre cinemas que inseriam frames de um refrigerante delicioso e geladinho no filme para fazê-lo subliminarmente desejar uma bebida vendida por eles, você entenderá que essa é apenas uma nova dobra de uma ideia antiga: fazer os consumidores quererem o produto. Parece funcionar, e seus efeitos têm sido traiçoeiros e amplos, com consequências que vão além da venda de produtos, envolvendo a forma como interagimos uns com os outros, com nossas ideias e com o mundo.

O nome da startup do programador Ramsay Brown diz tudo: Laboratórios de Dopamina. A companhia, que faz programação para empresas financeiras e fitness, é voltada para a criação de códigos que impulsionem respostas neurológicas no cérebro de seu público. Brown diz, para a CBS, “Um programador que entende como o cérebro funciona sabe como escrever um código que levará o cérebro a fazer certas coisas.” A ideia é aumentar o fluxo de dopamina, neurotransmissor responsável pelas sensações de bem-estar e prazer, no centro de recompensas do cérebro. Desse modo, você não consegue evitar desejar aquela experiência mais uma vez.

Segundo Harris, seu telefone é uma máquina caça-níqueis que você não consegue parar de jogar: “Toda vez que eu checo meu telefone, eu estou jogando o caça-níqueis para ver, ‘O que eu ganhei?’” Às vezes você ganha, às vezes não, mas você precisa continuar jogando.

E o que seria uma vitória nesse mundo? Que tal likes no Facebook ou no Instagram? Parte do truque é otimizar o software para entregar essas recompensas inexpressivas de forma a provocar a máxima sensação de bem-estar. Já reparou que eles chegam aos montes? Brown diz, “Eles retardam algumas notificações para que você saiba delas todas juntas, com um impacto maior. Por exemplo: ‘Ei, aqui estão estes trinta likes de um tempinho atrás, que nós não mencionamos.’” Você preferiria ganhar um e depois outro, em pequenas gotas, ou experimentar a adrenalina de, de repente, receber dez? E o que gera essa decisão de liberá-los para você? De acordo com Brown, “Existem alguns algoritmos em algum lugar que fazem previsões: ‘Hmm, para este usuário aqui, que é o sujeito 79B3 no experimento 231, acho que podemos ver uma melhora em seu comportamento se lhe dermos as recompensarmos neste montante, e não naquele.’” Porém, esses não são experimentos dos quais as pessoas participem conscientemente — ao invés disso, nossos dados de usuários são coletados pelos aplicativos e, a partir daí, surgem as experimentações e os insights.

Nosso comportamento está sendo constantemente analisado para revelar o que será mais eficiente. Brown observa, por exemplo, que nós temos que rolar o feed de postagens do Facebook, porque o Facebook sabe que rolá-lo nos mantêm envolvidos por mais tempo. É tudo uma questão de nos manter engajados. Afinal, sempre que um serviço de internet é gratuito, você não é o consumidor. Você é o produto. “Você não paga pelo Facebook. Os publicitários pagam pelo Facebook. Você consegue usá-lo de graça porque os seus globos oculares são o que está à venda lá.” diz Brown.

Há um outro jogo cerebral com o qual os hackers brincam. Eles deliberadamente nutrem um senso de ansiedade nos usuários, que só pode ser resolvido retornando ao aplicativo ou ao site. Cooper, juntamente com Larry Rosen e sua equipe, visitou a Universidade do Estado da California Dominguez Hills. Rosen diz que há um motivo químico para uma pessoa comum checar seu telefone a cada 15 minutos. Ele diz que é ansiedade: quando você larga o seu telefone, o seu cérebro instrui a glândula suprarrenal a produzir cortisol. O hormônio cortisol produz a reação de “luta ou fuga” e, em poucos minutos, você está pensando “Nossa, faz um tempo que eu não checo o Facebook. Eu já não olho o feed do Twitter há um tempinho. Será que alguém comentou no meu post do Instagram?” Após escutar isso, Cooper ainda admite, “Posso ser honesto com você agora? Eu não prestei muita atenção no que você disse porque eu me dei conta de que meu celular está perto do meu pé direito e eu não o checo há, tipo, 10 minutos.”

Para provar seu ponto de vista, a equipe de Rosen conectou os dedos de Cooper a eletrodos para verificar seu batimento cardíaco e sua transpiração. Cada vez que mandamos uma mensagem de texto para o telefone de Cooper — sem o conhecimento dele — seus níveis de cortisol têm um pico, significando a liberação hormônio no sangue.

Quanto à “corrida à base da haste do cérebro” de Harris, ele se refere à alarmante facilidade com que programadores parecem estar manipulando nossas emoções mais primitivas: medo, ansiedade, solidão, etc, tudo sem qualquer consideração em particular pelo que isso faz conosco. Enquanto pesquisadores imparciais lutam para conseguir isso, os aplicativos e as atualizações continuam chegando para nós.

Harris tentou chamar a atenção do Google para esse fato com um relatório interno de 144 páginas que citou o hackeamento de cérebro como sendo a causa, por exemplo, do “enfraquecimento das relações interpessoais” e da “destruição da habilidade de nossas crianças de focar.” Ele não está afirmando que programadores sejam gênios do mal — mas que o sucesso de um aplicativo ou de uma plataforma dependa de atrair a atenção dos usuários e de mantê-la, e que esse objetivo tende a ignorar quaisquer outras consequências ou considerações.

Certamente, nunca se teve um impacto tão profundo e imediato em bilhões de vidas como os programadores têm agora. Porém, sem dados a respeito de um grupo-controle³ de não-usuários tão grande quanto o que o Vale do Silício possui de usuários (uma vez que estamos todos viciados), é difícil ter certeza de que o hackeamento de cérebro tenha o efeito que se acredita ter. Mas Brown, Rosen e Harris sentem que o nosso vício óbvio por nossos aparelhos celulares seja evidência o suficiente.


Se você achou o assunto pertinente e quer me incentivar a traduzir mais conteúdo que, caso contrário, não estaria disponível em português, curta o texto, compartilhe, grife as partes que achar mais interessantes… :) o/


¹ “race to the bottom of the brain stem”

² brain hacking”

³ Grupo de indivíduos que num experimento não recebem qualquer tratamento especial, a fim de servir como referência-padrão às variáveis a que se submete o grupo experimental.

)
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