Relacionamento abusivo
Sobre a cicatriz que ainda dói.

Porque eu achava que estava superado. Acreditava que o medo não existia mais, que era uma experiência do passado que não tinha mais poder na minha mente, na minha vida, que não trazia mais alterações no meu corpo.
Mas o texto de ontem sobre autorrespeito fez algo doer aqui. E a partir do momento que decidi que escreveria sobre isso, já me vi trocando meu nome e foto de perfil. Significa que o medo de me deparar com o agressor ainda está nas minhas ações.
Respira.
Tive alguns relacionamentos nessa vida. A grande maioria partiu da iniciativa do outro e da minha vergonha de dizer “não”. Vergonha e medo de não surgir mais nenhum doido com essa intenção, pois eu tinha a certeza que era muito feia e ninguém iria querer.
A. tentou me convencer a transar com ele ainda muito nova. Eu era menor de idade e ele maior. Ele tentava me convencer que aquilo era um ato de amor e eu consegui me livrar intacta passando por louca e fazendo com que ele enjoasse de mim. Não tinha coragem de dar adeus.
B. tentava passar a mão constantemente e era algo que me incomodava demais, eu não queria e por vezes me vi tentando permitir por achar que era obrigação.
C. me chifrou horrores! Outras pessoas faziam o que eu não queria.
Mas aqui eu quero falar de D. E do quanto o abuso psicológico foi mil vezes pior que o físico. Porque eu tinha certeza que só sairia desse relacionamento morta. Eu era puta, vadia, vagabunda. Ele iria me expor, falar com meus pais. Iria onde eu estudava. Ouvi de tudo… E por muito tempo achei que se sobrevivesse a isso, ninguém iria ficar com uma pessoa que era puta, vagabunda. Comecei a me ver da forma que ele me via e gritava que eu era! Então ou era morta ou sozinha.
A sensação que eu tive por muito tempo é que meu corpo não me pertencia. Meu sexo foi feito para satisfazer as vontades do outro. Só e somente quando o outro quer. Apanhei para compreender isso e essa mensagem se repetia a cada dor, a cada lembrança.
“Por que você fez isso?” / “Porque o outro quis que eu fizesse.”
Não quero dar mais detalhes que esses. Não é algo que eu queira encher meus pensamentos e puxar na memória e lembrar de sons, cheiros, da sensação da lágrima no rosto.
O que eu quero dizer é que ao sair desse relacionamento, eu nunca mais fui a mesma. Não morri, não disso. Não fiquei sozinha, não dessa forma que imaginei. Mas morri e me isolei do mundo diversas vezes! Já quis fazer isso ao pé da letra diversas vezes!
Autorrespeito não é algo que eu saiba fazer, agora deixo bem explícito isso. Mas é algo que eu quero e preciso. Porque eu não morri e não estou sozinha. Tenho uma mulher de 31 anos para educar (eu mesma) e mais algumas meninas lindas da família, outras tantas meninas e mulheres do meu círculo de amizades e muitas, muitas que ainda não conheço, mas que um dia irei.
Que a gente aprenda a se colocar em primeiro lugar sempre! Isso não se chama egoísmo, é amor próprio.
