O bucho brasileiro

O Brasil é um país explorado. Não há dúvida acerca desta afirmação. Sejam os políticos, os estrangeiros ou os colonizadores, nosso pais fora, e ainda é, sistematicamente explorado para o benefício de poucos. Um efeito colateral desta constante infelicidade é a maneira com que as expressões coloquiais no interior do país evoluíram para refletir a situação.

O interior do Brasil foi alvo de exploração dos colonizadores por muitos anos. Não apenas a terra, como também o povo, sofreu com a corrida do ouro e nas grandes plantações. Em específico, deixemos as plantações para uma posterior oportunidade, e tratemos das Minas Gerais, como os Portugueses reinóis costumavam dizer.

Imagino que a maioria de vocês já tenham ouvido a expressão ‘homem de meia tigela’, ou similar. Caso contrário, fica aqui o significado: ‘meia tigela’ refere-se à incompetência, corpo mole ou má vontade de determinada pessoa. Ao dizer ‘fulano é de meia tigela’, diz-se que fulano não se esforça, que faz um mau trabalho.

Imagino que até o mais desatento entre os leitores possa prever o que está por vir. Assim como o termo Casa-Grande tornou-se sinônimo com o poderio latifundiário dos donos de grandes plantações, a expressão-alvo do presente texto também tem sua origem na sistêmica escravidão empregada pelos colonizadores e colonos mais abastados.

A expressão ‘de meia tigela’ está tão ligada à escravidão quanto a senzala. Suas raízes encontram-se nos veios de minérios e nos escravos responsáveis por minerá-los, preenchendo o bucho — um buraco na rocha, cujo qual o seu enchimento era a meta diária do escravo — ou, como muito se acontecia, falhando tal tarefa. É deste mesmo bucho, também, cuja expressão ‘de bucho cheio’ se origina.

Enquanto que esta, usada para qualificar um escravo que havia realizado um trabalho exemplar — preenchendo seu bucho — veio a se tornar sinônimo de comer bem e apreciar uma boa refeição, seu significado original era longe disso. O bucho cheio representava uma ração completa, no sentido de que as refeições do escravo não seriam deduzidas de acordo com o seu desempenho faltante.

É em contrapartida ao bucho cheio que a expressão analisada em tela surge. Um homem de meia tigela — cuja ração vinha pela metade — era aquele incapaz de encher o seu bucho nas minas. Ao inspecionar o desempenho dos escravos, observava-se o quão cheio estava o seu bucho. Como punição para aqueles que, aos olhos de seus nefastos senhores, fracassavam em cumprir a sua quota, a ração do dia era diminuída.

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