A cultura dos cartuchos e locadoras dos anos 90

Uma breve análise sobre a vida dos cartucheiros há 20 anos

Kyo Focka
Kyo Focka
Jul 25, 2017 · 6 min read

O período dos anos 90 foi, sem dúvidas, a época de maior popularização das locadoras de jogos de vídeo games. Em uma década onde o hábito de apreciar jogos virtuais eram restritos em maior parte aos seus próprios aparelhos (vídeo-games) de simulação, e anterior à fase de maior disseminação dos jogos através dos computadores cada vez mais potentes lançados posteriormente.

As maiores guerras travadas durante esta década entre as grandes empresas Nintendo, Sony e Sega, eram inocentemente apreciadas em lojas próprias do segmento, onde além de realizarem a venda de consoles e games, também trouxeram uma opção que ajudou totalmente à difusão dos jogos eletrônicos: a opção de alugar jogos e consoles. Este último que funcionava como uma “lan-house” da época (sem o “lan”, óbvio), mas digamos que funcionava como uma “game-house”.

Cena típica em uma vídeo locadora dos anos 90. TVs de tubo e cadeiras de plástico.

Apesar da popularização nunca vista antes no segmento, ter um vídeo-game nos anos 90 não era uma coisa muito simples e acessível. A maioria que possuía um console, dificilmente tinha condições monetárias para manter um grande catálogo de jogos, tendo em vista que até antes da propagação dos CDs & pirataria, jogos em cartuchos poderiam chegar a preços absurdos. Pegando como base a próxima imagem, um jogo lançado em 99, como é o caso do Super Smash Bros, custava R$168,99. Ou 3 parcelas de R$56,33. Algo absurdo para época, onde o salário mínimo no Brasil era de R$136,00.

Anúncio provavelmente de 2000, porém com jogos de 99. Chupinhado de: http://www.n64brasil.com.br/2010/03/o-preco-dos-cartuchos-na-epoca-do.html

Um vídeo game então, nem se fala. Um Game Boy Color em 98 custava R$399,00. O salário mínimo era de R$130,00.

Chupinhado de: http://rockntech.com.br/quanto-os-jogos-e-consoles-de-videogame-custavam-na-decada-de-90-descubra/

Já o Nintendo 64, lançado no Brasil em 97, custava R$ 700,00.

Chupinhado de: http://link.estadao.com.br/blogs/modo-arcade/quanto-custavam-os-videogames-na-epoca-em-que-foram-lancados/

Para isso, as vídeo-locadoras surgiram como solução para quem não tinha poder aquisitivo tanto para ter um vídeo game, quanto para jogar algum game. Apesar de toda a dificuldade encontrada na época, os anos 90 foi o período onde grandes títulos foram lançados.

Eram tempos difíceis, mas que deixaram saudades em muitos (as) marmanjos(as). Para alugar por 3 dias um cartucho de Nintendo 64, por exemplo, custava algo em torno de R$3,00. Logo, o programa para o fim de semana era alugar algum jogo na sexta e jogar incessantemente até segunda. Inclusive, muitas convenções chamadas de “aniversários” naquela época eram regados a muitas fitas alugadas, refrigerantes e doces, garantindo a diversão dos jogos multi-players juntamente com a família.


O drama do “file” apagado

Um dos maiores dramas para quem tinha um vídeo-game de cartucho era o fato de que muito dificilmente os jogos exigiam Memory card, uma vez que tudo era salvo no próprio cartucho. Mas qual o drama todo em torno disso? Te explico.

Em sua maioria, os jogos de cartucho disponibilizavam em sua memória interna apenas algumas opções (geralmente eram três) de arquivos para salvar a sua performance no game. Uma vez que cada locadora disponibilizava apenas um exemplar do game para o aluguel, e tendo em vista que mais de três pessoas diferentes alugariam este exemplar, logo faltaria espaço para todo mundo. Por isso, muitas vezes ocorria de alguém avançar grande parte do jogo em um fim de semana, e no outro quando fosse alugar para dar prosseguimento, o seu arquivo estava apagado. O que isso significa? Sim, o azarado deveria começar sua campanha outra vez do zero.

Pessoalmente, me lembro que havia uma “regra” no inconsciente coletivo de todo o gamer na época: se for apagar um arquivo, que apague o que tem menos conquistas. Solidariedade total. No entanto, isso não ocorria todas as vezes, porque na época também já existia a famigerada trollagem. Me recordo que uma vez precisei finalizar o jogo Conker’s Bad Fur Day (que puta jogo!) nos 3 dias disponíveis do aluguel, pois eu já estava jogando há 3 semanas, e toda semana que eu o alugava pra continuar meu progresso, algum mal amado troll noventista apagava o meu arquivo.


A valorização da conquista

Finalizar alguns jogos complexos de cartucho alugados nessa época era uma tarefa árdua, tanto pelos problemas com os trolls, quanto pela quantidade restrita de materiais que você poderia encontrar na internet. Não, não existia banda larga. Não, a informação não era tão disseminada quanto é hoje.

Basicamente, se por um acaso você travasse em alguma parte do jogo, dificilmente você encontraria algo no Cadê.com. Ou seja, era um mundo completamente diferente. Na maioria das vezes você precisaria ir até alguma banca da sua cidade para comprar alguma revista que possuísse o detonado do jogo, ou então se matar até conseguir na raça. Geralmente a revista Gamers salvava a galera com suas “dicas e macetes”.

“Dicas, truques, macetes e adesivos super transados”. A revista Gamers foi responsável por ajudar muitos na época.

O legal disso tudo é que quando você finalmente conseguia finalizar algum game mais complexo, você se sentia orgulhoso. Contava para os amigos, para seus primos, até para os seus pais. A vontade era de falar pra todos que você havia conseguido terminar aquele jogo, pois com certeza você não era o único que estava jogando. Muitas das vezes rolava uma espécie de competição entre amigos para saber quem terminava primeiro, para assim ser “mais foda” que o outro. Mas acima de tudo, havia uma valorização enorme das coisas. Uma valorização de poder ter/jogar um vídeo-game, que era difícil para época, uma valorização de terminar um jogo mesmo com algumas árduas consequências que precisavam ser encaradas a partir do momento que você os alugava. Creio eu que todos que passaram por essa época se lembram perfeitamente dos jogos que “zeraram”, dos detalhes de cada avanço no game, dos momentos em que jogava, das conversas com os amigos, das idas às bancas de jornais atrás de revistas, do descobrimento de novos jogos nas “alugadas experimentais”, dentre várias outras coisas que poderiam rodear esta atividade.

Hoje em dia, assim como em qualquer outra fonte de cultura (música e cinema), há MUITAS alternativas, muitas opções, todas de muito fácil acesso, e com isso as experiências estão ficando cada vez mais descartáveis. É tão fácil conseguir algo, que quando você o termina, dificilmente lembrará depois de uma semana.

Talvez este imediatismo que a nossa humanidade produz atualmente, esteja destruindo a forma de apreciação do entretenimento, criando cada vez mais novas gerações de ansiosos. Ou talvez eu simplesmente esteja ficando um velho rabugento, que problematiza tudo e que não soube se adaptar a este novo mundo. Mas de uma coisa eu tenho certeza: jamais jogarei novamente um game com a mesma empolgação que joguei nessa época. E tenho certeza que não estou só.

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