Escrever (e ouvir)

Comecei a escrever para evitar a sensação de que estava falando com as paredes. Por ser um tanto introvertida, a perspectiva de estar incomodando também torturava o meu estômago. Eu tinha pouco mais de 12 anos quando percebi que escrever era mais do que conversar comigo mesmo, era um alento. O papel não tripudiava sobre o assunto, não contestava ou fingia que estava ouvindo quando na verdade estava prestando atenção em qualquer outra coisa. Ele só estava parado ali, ouvindo. Me ouvindo. E conversar com pessoas envolvia muito mais talento e esforço do que o simples fato de condensar palavras em um caderno qualquer. Envolvia muito mais força de vontade também, já que quase sempre todos estavam querendo falar sobre si, seus próprios problemas e só estavam esperando a “deixa” para fazer daquela conversa um tema deles. É assim quando se é caçula em um lar e pequena perante a vida, é assim quando se é boa ouvinte, quando se fala pouco, quando se é uma boa observadora. E não raramente, deve ser assim com você também.

Eu era uma criança quando entendi que escrever poderia salvar a vida de qualquer pessoa e que para arriscar umas linhas não precisava ser um gênio da escrita ou uma promissora escritora no futuro, era preciso apenas colocar no papel aquilo que estava perseguindo a minha memória, afligindo o meu estômago (não é nele que as emoções se escondem?)

Com as distrações atuais da tecnologia, conversar tornou-se um desafio ainda maior e mais desafiador, daqueles que nos faz desistir em menos de três palavras trocadas e não respondidas. A conversa pessoal e momentânea já não é tão mais atrativa, os aplicativos são mais divertidos e interativos (ainda não somos capazes de fazer com que memes surjam na nossa frente para deixar uma frase ou situação mais engraçadinha, nem exemplificar a vida com vídeos em tempo real). Competir com esse tipo de interação é quase impossível e até injusto. Mas não se engane, as pessoas são as mesmas, as distrações que são diferentes. Além do mais, falar sobre si mesmo continua sendo o hobby de muitas delas.

Então, a gente apenas agradece. Agradece por ter pego uma caneta e um papel qualquer e ter escrito a primeira vez naquele dia chuvoso quando tudo ainda era um caos adolescente e agradece por ainda saber fazer isso agora de qualquer forma.

Comece a escrever. Passaram-se anos e o papel ainda será o seu melhor ouvinte.