O pós fim do mundo

O céu iria finalmente desabar. Depois de meses após o desaparecimento do Sol, o grande dia havia chegado. Os animais que ainda resistiam pareciam implorar aos céus pelo fim do mundo, os humanos seguiam suas vidas com o máximo de normalidade, afinal, as contas no fim do mês ainda chegariam.

Era aproximadamente 15h de um domingo qualquer de agosto quando tudo teve início. A tempestade que começara branda horas antes, ganhou contornos inimagináveis e passou a arrastar tudo pela frente: árvores, carros, telhados das casas, nada poderia parar aquela ventaria, aquela chuva, aqueles raios e trovões. Os que estocaram comida e água em seus abrigos à espera do grande dia, dividiram com os amigos e com os familiares aqueles momentos finais, enquanto outros simplesmente se puseram a esperar e assistir o fim do mundo de suas janelas, da rua ou de suas televisões.

Tudo aconteceu bem mais rápido do que todos esperavam. Cidades foram engolidas por terremotos, assoladas por tsunamis, tornados e outros desastres naturais. A Terra estava destruída, nada mais funcionava, nem transportes, nem eletrodomésticos ou eletroeletrônicos, nada. Não existiam mais animais e pessoas nas avenidas. O céu estava negro. Era uma escuridão total e aparentemente sem fim.

No dia seguinte, Jorge acordou tarde e mal conseguia abrir os olhos até notar que estava atrasado para o trabalho. “Droga, droga! Serei demitido se não chegar a tempo”, pensou enquanto corria para escovar os dentes e vestir a primeira camisa que encontrou pela casa sem sequer checar se estava limpa.

- Porra, Jorge. Isso são horas? Não acredito que você chegou atrasado de novo cara, o patrão não vai gostar

- Eu sei, mas dessa vez eu não tive culpa, foi o trem que não passou e eu perdi o ônibus, acredita? Tive que vir praticamente correndo.

- Por que você não veio de carro então?

- Ele não quis funcionar, fiz revisão semana passada e o tanque tava cheio, só não ligou.

- Caramba! Espero que o chefe não perceba senão você vai ser demitido, ele te deu um último aviso.

- Já tem café? A minha cafeteira deve tá quebrada.

- Nem sei cara, to cheio de serviço e nem fui na copa ainda. Quando for, traz dois. — E os seus relatórios? Você já terminou?

- Vou terminar até a hora do almoço, pode apostar.

Longe daquela conversa, num famoso escritório de advocacia da cidade; Anselmo parecia aéreo, não tinha certeza sobre nada e as coisas já não pareciam as mesmas, nem a sua coluna. Deveria ser só impressão após mais uma noite de insônia.

- Anselmo? Anselmo? Acorda, to falando com você!

- Me desculpe, pode repetir o que disse?

- Você assistiu o espetáculo até o fim ontem? Na metade, a minha TV parou de funcionar, deve ter sido a tempestade, de repente tudo ficou muito escuro lá fora, então eu resolvi ir dormir.

- Ah, não vi não. Quando chegou na parte dos carros caindo em grandes buracos no asfalto lá no Japão eu desliguei a televisão, juro que não queria vê aquilo…

- Mas você acha que acabou?

- O que? O mundo?

- Claro que não, Pedro, pelo amor de Deus! Se tivesse acabado a gente não estaria aqui xerocando esses processos que parecem nunca ter fim.

- E quantas páginas faltam ainda?

- Cerca de dez mil…

- Droga! Assim vou perder o futebol mais tarde. Malditos políticos corruptos.

No prédio ao lado, Carlos foi chamado ao escritório do RH de uma grande empreiteira.

- Senhor Carlos, precisamos comunicar que não contamos mais com os seus serviços a partir de agora, o senhor pode estar passando amanhã para pegar o montante referente a suas contas.

- Eu, eu, eu to sendo demitido? Assim, sem mais nem menos?

- Estamos cortando recursos e o senhor foi escolhido, estamos com grandes problemas com a Polícia Federal, se é que me entende.

- Posso me sentar um pouco? Acho que não estou passando muito bem.

- Não há necessidade de sentar Senhor, aqui está a sua carta de demissão. Volte amanhã para acertar os detalhes finais, mas se quiser pode pegar um bombom nessa bomboniere, eles são divinos.