Iris, the quinquilharia queen

Hoje eu assisti o documentário sobre a ícone fashion norte-americana Iris Apfel, uma nova iorquina que hoje tem 95 anos e já foi tema de inúmeras exposições sobre seu estilo exuberante de se vestir. Pelo documentário, aprendemos que Iris foi uma requisitada decoradora porque oferecia novidades e exclusividade aos seus clientes. Para atender a essa demanda, ela e o marido, Carl, viajaram todo o mundo comprando objetos de decoração os mais variados.

E roupas. Muitas e muitas roupas, roupas para encher quartos e apartamentos que ela tem ou herdou. Roupas de estilistas famosos, de feiras, roupas típicas do Japão à África, bordadas, pintadas a mão, feitas dos mais variados tecidos e estampas. E acessórios. Pulseiras e colares, grandes e extravagantes, um carnaval de miçangas que ela empilha no pescoço e são sua marca registrada, assim como os óculos redondos e enormes.

Além de roupas, o apartamento onde ela vive com o marido é atulhado de objetos, especialmente brinquedos e esculturas kitsch como uma espécie de ema que embaixo da asa esconde um minibar. São tantos ursinhos de pelúcia, cachorros de cerâmica, vasos e palhaços e que tais que a locomoção parece difícil e a limpeza deve ser desafiadora. Ela é divertida, a Iris, mas ela parece estar a um papel de bala de se tornar uma acumuladora patológica. No final do filme somos levados a um depósito enorme onde o casal deixou guardado por anos centenas, talvez milhares de objetos de outros países que trouxeram em contêineres para as decorações da artista.

Ora, por que acabei de chamá-la de artista? O que será que ela fez além de encher as casas de pessoas ricas com excentricidades? O que ela faz além de se vestir como uma versão mais comportada e mais frágil da Elke Maravilha (essa sim, um escândalo de personalidade)? Iris Apfel foi tema de exposições onde suas roupas e acessórios eram o destaque, e todo mundo parece adorar quando ela diz coisas como “o mundo é muito cinza e sem graça, por que não nos vestirmos como quisermos?”. Ora, claro… Mas e o que mais?

Boa parte do documentário acompanha Iris em suas compras. Ou falando sobre compras. Ou pechinchando. Ela é um monumento ao consumismo inconsequente e inútil, que faz as pessoas acreditarem que usar quatro maxicolares de uma só vez vai garantir estilo, diversão ou personalidade para alguém. Ou que combinar uma calça florida Versace com uma túnica africana vai de alguma forma tornar a vida melhor. A superficialidade é quase hipnotizante.

No meio de tanta quinquilharia, sempre haveria alguma coisa útil, claro. O amor que Carl devota a Iris é enternecedor. Ele a admira sinceramente e vê-la feliz parece ser seu maior objetivo. Ele é paciente e sempre carinhoso, sempre cheio de elogios a essa mulher que parece ter enchido a vida dele de cores e novidades. Ela, mesmo sempre ocupada com mil telefonemas e entrevistas, também está sempre ao lado dele, oferecendo chá e sendo mandona, o que ele parece adorar. Pobre Carl, que comprou um terrível boné vermelho com tachinhas douradas porque achou que ela gostaria e depois ficou perdido quando a ouviu dizer que a peça era um horror. Que doce bobinho.

Carl e seu boné

Outra joia é a energia de Iris, e a curiosidade incessante, além do seu bom humor. Essas são lições de vida. Ela quer participar do mundo, contribuir para deixá-lo mais interessante, valorizar e colecionar o que foi produzido de instigante. Realmente, não dá para negar isso, por mais que seja um estímulo para o consumo incansável e inútil. Essa vivacidade faz com que ela tenha amigos e admiradores de todas as idades, e certamente tenha mais histórias para contar do que apenas às relacionadas à moda e ao consumo.

(ou não?)

“Mas quem sou eu para julgar? E se a pessoa estiver se sentindo bem daquele jeito? Eu acho que é mais importante estar feliz do que estar bem vestida”, disse Iris quando perguntada sobre o que ela pensava quando via alguém mal vestido.

Sinto que eu poderia usar essa sabedoria… quem sabe uma versão parafraseada: Por que eu não posso julgar? Acho que é possível ser feliz sem tanta quinquilharia.

Todas as fotos tiradas do Google, obrigada internet
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