O jeitinho brasileiro de acreditar em mudança

Desde o ano passado, venho alertando as pessoas mais próximas sobre a necessidade de mudança. Não é o alerta de uma especialista, mas de alguém que está conectada com o mundo que nos cerca. Não coincidentemente nos últimos dias, muito se tem falado do eclipse lunar em Aquário que ocorrerá no dia 7 de agosto, que promete mudanças nas vidas de todos nós. Fala-se em perdoar a si e aos que o feriram e seguir adiante, libertando-se do passado, em ligar-se a quem se é e, finalmente, tomar as rédeas da própria vida. Mas, não estou aqui para falar de astrologia ou religião, até porque não é minha especialidade.
Por toda essa conversa que tenho acompanhado nas redes sociais, gostaria de colocar-me sobre alguns cacoetes que percebo em todo o discurso acerca do assunto. Esses discursos dizem sobre os sintomas, tratando a necessidade de mudança de modo superficial. Porque, você sabe, é mais fácil, dá menos trabalho, exige pouco de si. Mas, ao buscar as causas, é notável que o ser humano gosta mesmo é de se enganar por não querer enxergar a própria mediocridade.
Cacoete #1: Acreditar que se libertar do passado trata-se somente de desligar-se de pessoas que nos fazem mal
É muito fácil acreditar que o problema está nos outros, mas a auto-análise é fundamental para perceber quantas vezes você se atirou ao precipício por desejo próprio, por vícios e hábitos só seus. Mais do que isso, notar o quanto se corre atrás do rabo e a vida patina porque acredita que a diversão está intrinsecamente relacionada aos hábitos do passado, por mais que todo o entorno tenha mudado. Se você tomou decisões que deveriam tê-lo posicionado adiante segundo seus critérios, mas sente que esse “adiante” está custando a se consolidar, você pode ter mantido as âncoras do passado em seus pés. Libertar-se do passado é encerrar uma fase da vida onde há pessoas (outros) e comportamentos próprios (self) que não cabem na nova era a ser vivida.
Como diria Belchior, o passado é uma roupa que não nos serve mais.
Cacoete #2: Acreditar que a mudança “vem acontecendo”
Gerúndio nenhum é bom, mas neste caso é um pouco pior. Crer que a mudança está em curso é desprezar que, no máximo, está havendo uma falsa adaptação, uma adequação, um “jeitinho brasileiro” para enganar o cérebro, dizendo que alguma coisa está diferente. Mudar não é adaptar-se, é virar a chave do ligado para o desligado e vice-versa. Mudanças de comportamento, assim como a extinção de certos hábitos, não ocorrem gradativamente em quem tem desejo real de transformação. Se você acha que está mudando, perceba: está apenas dando um jeitinho de parecer diferente aos olhos do mundo e aos próprios olhos.
Se você não mudar, vai permanecer exatamente onde está — no passado — e não terá a companhia de quem se moveu para o agora definitivamente. A escolha é sua.
Cacoete #3: Acreditar que o otimismo irá salvá-lo
Depois do empreendedorismo de palco, percebo que isso está minando qualquer possibilidade de mudança. O otimismo ajuda-nos a levantar da cama com um sorriso no rosto, mas não é combustível suficiente para levar-nos até o fim do dia. Crer que somente um pensamento positivo irá transformar tudo a sua volta é o maior engano, típico de gente preguiçosa. Para atuar em prol da mudança, você precisa de atitudes e ferramentas reais. Um estudante não vai se livrar da reprova só porque foi com um sorriso no rosto para a escola. Ele precisa de disciplina e concentração para além da sala de aula, sobretudo em matérias que não se destaca, para conseguir se superar e, pelo menos, passar da média.
Coloque seu melhor sorriso no rosto, mas não se esqueça de usar a espada da ação. Sem ela, você poderá apenas contar com a sorte.
Por fim, a quem acha que minhas palavras são radicais, só posso dizer que tenho em mente as atitudes de Jesus Cristo, um homem que não tapava o sol com a peneira, não era otimista e nem pessimista. A força motriz da palavra é a verdade. E se não posso dizer que isso tudo é a verdade mais cristalina, posso ao menos afirmar que é a verdade em que acredito.
