Eu não gosto de ficção

Foi o que a moça falou. Ela disse que não gostava de Harry Potters e senhores de anéis, que gostava de livros práticos, que ensinam a plantar, explicam o valor nutricional dos alimentos etc. Eu sou como ela. Tampouco gosto de ficção.

Como?

Não, não gosto. Sou uma pessoa muito prática, que não gosta de perder tempo e, como ela, acho que não gosto de ficção porque me dá essa impressão de desperdício de tempo. O problema é que acho que nunca me deparei com nada que não fosse ficção, talvez nem a gravidade ou o tempo, que eu respeito tanto, mas são apenas formas de eu organizar minha vida e tentar evitar fazer besteira, do tipo saltar de um prédio, porque eu imagino que, se eu fizer isso, eu vou, no mínimo, me machucar, afinal, é o que eu ouço dizer que acontece quando você se joga de uma determinada altura. Aí na minha cabeça eu visualizo uma pessoa tristemente despedaçada no chão e possivelmente morta. Coisa ruim de se pensar, mas é um pensamento, ou seja, é ficção.

Ser uma pessoa prática, com preferência por uma literatura utilitária, não me torna menos sonhadora do que alguém que prefere assistir novela, aliás, talvez enquanto eu planeje minha horta de permacultura de apartamento eu seja mais sonhadora do que uma pessoa que está simplesmente cansada depois do expediente e vai ali amortecer os sentidos com o drama de classe média que passa na TV, ou vai ali escrever um conto sobre um assunto que ouviu na rua (e depois as pessoas pensam que aconteceu foi com ela, mas não, era só mentirinha adaptada, mesmo assim fez alguém sofrer, fez alguém ter dor no corpo depois de um fim de amor, sei lá, uma dor quase como se fosse de uma queda do terceiro andar e, portanto, real para a pessoa que sofreu, mas fictícia para quem só escreveu ou leu o texto).

Eu não gosto de ficção, gosto de vida real, de vida prática e por isso escrevo coisas que outras pessoas pensam que é mentira, mas não é não. Aconteceu. Com alguém, de algum jeito. Aconteceu na vida de quem leu e visualizou, ouviu, sentiu cheiro enquanto lia, no mínimo, mas aconteceu.

Eu não gosto de ficção, mas quando eu conheço um cara e gosto dele, logo imagino mil coisas que… viu? Ficção. Sem ela você não consegue viver. Tudo em que você acredita, até que vai hoje para o trabalho e vai chegar em casa à noite a tempo do futebol é… o quê? Só coisa da sua cabeça.

Organizar aquela planilha para não gastar tanto no mês que vem.

Arrumar aquelas fotos da viagem do ano passado.

Contar para minha mãe que estou bem.

Tudo isso é só historinha, é só coisa inventada, mas eu esqueço disso porque me organizo a partir do que crio, a partir das mentiras que conto sem perceber para mim e para os outros…

O que não é ficção? A dor de uma tatuagem? Mentira, eu me tatuei só para sentir dor e não senti nada.

O que não é ficção? A saudade de casa?

Eu não sei o que não é ficção, com isso eu não vivo, por isso, acho que se eu disser de novo que não gosto de ficção, eu vou tristemente assumir para mim mesma (criando uma ficção), que não gosto da vida, e isso é mentira. Da vida eu gosto muito, só que eu sei que tudo nela é criação, tudo é mentirinha, tudo é coisa em que acredito e que muitas vezes está só na minha cabeça.

Tá, então eu mudo o título lá em cima. Não importa se eu gosto ou não de ficção, ela manda na minha vida. E eu penso isso enquanto visualizo colocar violetas do lado que não pega sol na minha varanda, porque sei, pelos meus livrinhos de jardinagem, que violeta gosta de sombra. Eu li no livro e acredito nele. Se eu acredito, talvez não seja ficção, ou talvez seja. Então não importa como eu me relaciono com a ficção, só preciso admitir que ela está por toda parte… o melhor que eu posso fazer é não desgostar dela, quem sabe eu deva gostar.

Mudo o título. Eu gosto de ficção.

Eu só vivo ficção.

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