Mais um ano chegou ao fim. Não sei como está a sensação de vocês, leitores, mas tenho uma impressão que os anos passam cada vez mais rápido, e 2015 não foi diferente. 
Mais uma vez estou na minha cidade natal, onde costumeiramente retiro alguns dias para uma breve reflexão sobre o que foi, ou o que virá. Posso usar as horas a meu favor, pois aqui no interior, cercada da família, as atividades costumam ser poucas, comparadas à rotina casual de uma mulher solteira e moderna, que praticamente vive para o trabalho. Para quem foi acometida por uma gripe completamente inesperada, a rede passou a ser a melhor companhia nesses últimos dias do ano.
Ao percorrer os olhos ao passado, noto-me cercada de bênçãos. Comecei o ano com uma equipe missionária em Cairo, Egito. Tornamo-nos uma grande família em Cristo, e conheci um lugar com o qual sonhara desde a infância. História antiga, pirâmides, cultura árabe, muçulmanos, culinária picante! Foi uma missão extraordinária, na qual eu prometi a mim mesma, que só retornaria com inglês fluente. 
Os meses passaram, mudei-me de cidade, e eu mal imaginava que a maior bênção ainda estava por vir. Tive o privilégio de casar a caçula, minha melhor amiga. Em contrapartida, ganhei um irmão ! Haha brincadeiras à parte, não poderia existir um irmão mais bem escolhido para se unir a nós. Ponderado, equilibrado, cristão, trabalhador, e o mais importante, que ama minha irmã, e faz de tudo para vê-la sorrir. Os olhinhos dela brilham quando ele se aproxima. É de dar gosto vê-los um perto do outro.
Conheci uma igreja nova, onde encontrei grandes amigos que me acolheram tão bem. Ganhei mais um emprego, que me amparou entre tapas e beijos no último semestre.
Sobretudo, meu ano teve um marco. E como dizem os antigos, as melhores coisas na vida, acontecem quando menos esperamos. De fato, eu não esperava. Os meus dias tomaram mais cor, já não aguentava mais tons escuros e cinzentos já sem brilho, sem o impulso da vida.
Ele chegou de um jeito tímido, quase não fazendo barulho. Quis manter seu espaço, sua identidade, seu jeito estudioso e trabalhador. Não sabia o que passava em sua mente, tampouco ele na minha. Na verdade, eu não estava muito preocupada com isso. Apenas fiz a classe de recebê-lo em meu ninho. É assim que cristãos agem com quem vem de longe. Senti-me induzida a ceder essa barreira até que as coisas se ajustassem. Mas foi impossível não notar...
Pouco a pouco ele aproximou-se de mim, conhecendo além de minha quietude, meus segredos. E eu, rendida àquela doce amizade, tornei-me refém de sua companhia. Quão agradável era saber que ao chegar em casa, poderia encontrar um ombro amigo onde eu podia chorar ou sorrir. As horas passavam que não víamos. Logo era mais de meia noite, e um pouco dele ficava em mim. Era impossível não notar...
Um mês passou após longas conversas sob colchões estendidos ao chão e simples refeições no treze, até que ele subiu para alguns andares longe de mim. Eu senti sua ausência, era impossível não notar...
Então chegou julho, agosto, e seguidos quatro meses desde que o vi entrar pelo portão da garagem do prédio naquele fim de maio. Nossa intimidade aumentou a cada dia. Era impossível não notar...
Não sei se é viável mensurar sentimentos, ou até mesmo, nomeá-los. Faz alguns dias que não o vejo, e parece que uma parte de mim está longe. É como se ele sempre tivesse existido, bem aqui, dentro de mim.
A tradução de algo que não sabia explicar acabou se personificando, e quando me dou conta, estou enraizada nessa razão desconhecida. É impossível não notar...
Guardo comigo atitudes sinceras e despretenciosas, olhares puros, sorrisos lindos, cheiro bom, ausência sentida, campainha tocando, comida caseira, carinho sem medida e orações silenciosas. O tempo é capaz de cuidar de tudo que vem, que fica ou que vai. É capaz de emoldurar uma gravura já esquecida, transformar o feio em bonito, e o pior no melhor. Ele confirma o verdadeiro, e faz florescer o que já existia. O tempo é aliado das Mãos divinas, que sabe transformar em bênção cada novo parágrafo da vida. 
Das surpresas que ele traz, eu só tenho a agradecer. Em seus desdobramentos e reinvenções, mostrou em mim uma pessoa ainda desconhecida, mais resiliente, e sobretudo, com mais amor para dar. Foi impossível não notar...
Meu desejo é que 2016 seja tão bom, ou melhor que 2015. Ou, mesmo que não alcance tais objetivos, que eu saiba encontrar nEle refúgio, que me guia em toda e qualquer situação!
Feliz ano velho

Dez / 2015

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