Retorno de Saturno — O mundo acaba e a gente não

DR retroativa, questionar seu estilo de vida, a profissão, a depilação, pedir desculpa àquele guarda de trânsito com quem você brigou quando tinha dezoito anos, afinal, você não sabia nada do mundo e agora você sabe. E sabe que o mundo acabou e a gente não. E caceta, como eu era idiota com 18 anos. Como fui tão monstra com aquele cara que me amava e como (achava que) amava aquele monstro que era tão babaca quanto era bonito. E como aquilo que a gente falava que aconteceria aos 16 — tipo casar e ter filhos e ganhar dinheiro e se encontrar profissionalmente — não aconteceu e pareceu que não aconteceria nunca mais e de repente: os filhos, os amigos que casaram e todo mundo que ficou tão rico quanto devendo ao banco. E por onde anda aquele carinha da escola que tinha um futuro-brilhante e parece que tá por aí e que tá bem, mas talvez esteja um pouco mal, já que todo mundo tá um pouco mal, já que o mundo acabou e a gente não. E como é estranho se sentir na última fase do supermarioworld, encarando por fim o chefão e ver aquele GAME-OVER gigante e depois ganhar outra vida, que você nem sabe se quer, mas você quer, e tentar de novo e primeira-fase e chefão e DR retroativa e pede desculpa pro guarda e pede demissão do trabalho e deixa a virilha cabeluda e sente falta daquela amiga que teve um filho e quase sente falta de ter um filho, mas não. E acha que é hora de se matricular no cross-fit, afinal, o mundo acabou mas a gente não. E vem as minas se unindo e vem a saudade daquela amiga que não pôde ver isso pois partiu aos 26, e toca o telefone e você quer que seja trabalho, mas é anúncio. E você precisa de tempo pra dar conta dessa vida cheia e precisa de móveis pra preencher sua sala que ainda está vazia, e é sexta-feira e é dia de comemorar que está solteira, mas não. E você lembra que não ligou pra sua avó e que foi aniversário de nem sei quantos anos de que tudo começou pra ela (e por consequência pra você) e liga pra avó e dá os parabéns e ela não acha nada bom, porque tem o trump e tem o putin e tem o cabral e tem o bolsonaro e tem o gordinho maluco coreano que talvez seja o mais perigoso de tudo. Talvez mais perigoso até do que ficar na janela esperando a luz do dia que não chega porque, afinal, você mora de fundos; e caramba, não era que a gente ia morar numa numa comunidade alternativa? E você lembra que também esqueceu de pagar o condomínio; esqueceu porque não faz sentido pagar para se estar onde não se está. E você não está ali. Você está em todos os outros lugares, na falta de coragem pra estar na síria, numa ecovila ou uma cidade europeia que te permita internacionalizar seu potencial sucesso (ou fracasso) e se sentir melhor por isso, ou não. E toca o telefone e dessa vez é trabalho e você queria que fosse anúncio. Fosse o que fosse que te tirasse daquele tédio, daquele chefe, daquele horror que é receber para se estar onde não se está. Porque você também não está ali. E pede demissão mais uma vez e se muda do apartamento que não pagou o condomínio e depila a virilha e repensa a história do guarda e descobre que na verdade estava certa e, caceta, ou acaba saturno, ou acabo eu.

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