Quando não precisa ser amor

‘A gente sai pra comer um lanche e tomar um sorvete, comer e falar até ficar cansados. Conversamos sobre tudo. Cada vez eu a descubro mais.
 Tem coisa que eu falo, e percebo que ela não gosta. Tem coisa que ela fala, e eu finjo que gosto.
 Tem histórias surpreendentes, experiências loucas que mesmo tão jovem ela já viveu. Tem coisa simples que eu faço ser complexa, e ela adora.
 Diz que não posso comprá-la com comida, porque assim eu sei que sempre vou conseguir.
 E eu continuo.
 Eu acho muito lindo como ela se encanta consigo mesma. Então eu deixo ela falar. Eu faço mil perguntas, e fico admirando como ela sorri bonito com as próprias histórias.
 As vezes ela acha que eu não estou prestando atenção. Deve ser minha cara de bobo. A culpa não é minha, eu falo pra ela, você é tão linda.
 E estou escutando tudo. Lembro de tudo. Lembro depois de coisas que até ela esqueceu. Faço uma poesia com um detalhe que ela me confidenciou sem querer, e faço uma estrofe inteira de um momento dela.
 A gente anda um pouco e ouço ela reclamando que está cansada por que trabalhou demais. A gente arruma um lugar quentinho, está frio, um lugar pra sentar.
 Só então, no final da noite, a gente consome todo nosso momento em um beijo único e inexplicável.
 É incalculável o quanto é bom sentir a pele dela, tocar seu corpo. Segurar seu rosto com carinho. E receber a força da afronta de seus olhos sobre mim.
 Na real, se eu pudesse, eu ficaria nesse momento a noite toda.
 Mas talvez daí, não seria nós, não seria ela.
 Essa é a minha história, mas poderia ser de qualquer um. Aliás, é de várias pessoas.
 De jeitos diferentes, de modos diferentes. Não existe regra.
 A questão é que a gente se curte, a gente curte os momentos em que estamos um ao lado do outro.
 Ninguém se pertence.
 Eu quero ser livre ao lado dela.
 E ela quer ser qualquer coisa que ela quiser ser, com mudanças a todo momento.
 Tem horas, que não precisa ser amor.
 As pessoas precisam se compartilhar, se transferir.
 E não precisa ser amor.
 Precisamos nos adentrar, nos assemelhar e nos parafrasear.
 E não precisa ser amor.
 Só precisa ser o que a gente quiser que seja, do jeito e na hora que a gente sentir que é.
 Não é amor, mas bem que poderia ser.’

(Lucas Medeiros | Blog: livrandote.wordpress.com | Facebook: Livrando-te |
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