Boletim da Água: “Mapeando o Comum”

O Livre Ambiente foi conversar com Clara Luiza Miranda, professora Dra. de Arquitetura da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e responsável por trazer o Projeto “Mapeando o Comum” para a Grande Vitória. Confira abaixo a entrevista e entenda melhor o projeto, o que ele pretende fazer e a importância de mapeamentos como esse.
LA: O que é o “Mapeando o Comum” e o que ele pretende mostrar?
Prof. Clara: “O “Mapeando o Comum” é um projeto criado pelo espanhol Pablo de Soto (Arquiteto, Doutorando em Comunicação da UFRJ, MediaLabUFRJ). Essa metodologia foi desenvolvida por ele junto com o coletivo denominado “Raquitetura”. Pretendem estudar e aprofundar o termo “comum”, dentro do contexto básico de que o comum é a natureza, mas também é produzido no momento contemporâneo da economia do mundo. No atual modo de desenvolvimento, a produção não está mais confinada na fábrica, ela transbordou para a cidade. Mesmo a gente em uma atividade cotidiana nossa, como no uso da internet ou atuando em algum dispositivo, a gente já está trabalhando na produção. Principalmente em um território como Vitória, que é um território ligado ainda a produção industrial, a produção de commodities, que são mercadorias e bens com baixo valor agregado. A gente tem o “Mapeando comum” em Vitória especificamente, que vai sempre olhar esse território das commodities, o território que ainda é indústria. O que a gente tenta mostrar é aquilo que é o comum, que é o comum da linguagem, da produção de afeto, do trabalho vivo. No “Mapeando BH”, por exemplo, vimos um conjunto grande de ativismo ligado a questões LGBT, ao cicloativismo, as hortas comunitárias. No nosso caso, a gente conseguiu trazer e ter relação com aqueles que adoram ocupar as ruas, aqueles que as atividades deles são em espaço público, em praças, como o Canelada (Vila Velha), R5 (Vila Velha) Boca a Boca, Maruí, Assédio Coletivo. Eu passei da teoria do Pablo de Soto, de discutir o comum, para identificar o comum, tornar ele visível e potencializá-lo. O evento consegue esse resultado ao colocar movimentos sociais, movimento dos bairros, coletivos, movimento negro, cicloativismo.
LA: Como surgiu a ideia de trazer o projeto pra Vitória?
Prof. Clara: Foi uma produção de rede. Eu conheci o Pablo de Soto pela internet, porque ele atuou na praça Porto do Sol em Madri, o coletivo dele já atuava lá. Depois eu o vi falando em um evento que preparava a Rio+20. Um dia eu cheguei aqui na universidade, e ele estava aqui no Labic (Laboratório de estudos sobre Imagem e Cibercultura da Ufes). O professor Fabio Malini nos apresentou e começou a ideia. O motor foi quando houve a proposta da implantação do BRT por cima da Praça do Cauê, em Vitória. O Malini decidiu que seria legal fazer algo e me chamou para ser o link no curso de arquitetura. Fiquei um pouco preocupada, porque a teoria do comum não era discutida por aqui, então passamos a dar uma disciplina no ano passado que aprofundou um pouco o conceito. Depois nós conhecemos e nos aproximamos da Natasha, responsável pelo “Mapeando” em Belo Horizonte junto com o Pablo de Soto. E fomos conhecendo os outros responsáveis. Foi uma junção de redes.
LA: A água é considerada um bem comum?
Prof. Clara: Sim, a água é. Esse entendimento da floresta como um bem comum, dentro da ideia da economia extrativista. As pessoas precisavam de recolher coisas e caçar. Uma das primeiras lutas em comum é lá no século XVI/XVII, quando o rei queria tornar a floresta exclusiva pra ele e o povo de determinados locais da Inglaterra começaram a batalhar e conseguiriam que a floresta fosse considerado um bem comum. A água é um bem comum por várias razões, ela interessa para os pescadores, ela interessa para toda a renovação do ciclo da água, da chuva, ela tanto irriga, quanto recebe, infelizmente, esgoto e dejetos, as vezes industriais. Ela é um bem comum porque ela é um dos elementos primordiais . A água, a terra, a rocha, são bens primordiais. E no nosso caso, toda relação com relevo, com a água, com a topografia das rochas, relacionada aos rios, que causa impacto nas épocas de chuva. A nossa urbanização depredou essas águas. A gente tem uma equação muito complicada. A urbanização tanto habitacional, quanto da produção portuária, industrial ou agrícola não pensou na preservação da água. Por exemplo, no caso de Vila Velha na articulação com os areais, as áreas de restinga, as florestas. Tudo isso que eu comentei — a água, a areia, a restinga, os biomas — eles são bens comuns. O básico do bem comum é isso. A gente tem duas bases de comum: o comum natural e o comum linguagem, afeto, produção social, trabalho vivo. Então a água é essencial. Em Vila Velha nós temos sete bacias, dentro de Terra Vermelha temos um valão e uma parte mais viva. Seria muito importante que a urbanização não fosse tão predatória.
LA: Sobre distribuição e consumo: nessas áreas onde vocês foram mapear, vocês conseguiram observar algo? Prof. Clara: Passamos em Paú, Vila Conceição e Vila Batista. Vimos a bacia do rio Aribiri, que é uma competição entre a urbanização e um problema econômico, com os portos. A nascente está morta. Ficamos observando e recebemos informações do Cláudio Zonatelli. Fomos apresentados a uma série de trabalhos realizados por ele. De Terra Vermelha, em Vila Velha a gente viu uma estação de tratamento de esgoto. E segundo o que ouvimos dos moradores e na pesquisa dos alunos, percebemos que aquilo não atende, não tem rede. Não está interligado o equipamento para tratamento da rede de esgoto. A gente viu o esgoto descendo dentro do espelho d’água, na calha do rio. Então existem os equipamentos, pelo menos em Terra Vermelha, mas a rede está insuficiente ou inexistente.
LA: O que vocês vão fazer com o material recolhido?
Prof. Clara: Vamos produzir mapas, gráficos, textos. Nós temos um material de filmagem feitos no primeiro dia que a gente andou. O território foi de Jardim Carapina até Terra Vermelha. E com esse material a gente vai produzir. A nossa negociação e conversa pra fazer o mapeamento já tem mais de um ano, então a gente tem muito material. Talvez até essa semana seja insuficiente pra produzir tudo o que queremos. Os mapas nós queremos que fiquem prontos. Estamos em três grupos fazendo essas três coisas: textos, comentários e mapas.
PREVISÃO DO TEMPO
A quinta-feira tem previsão de chuvas esparsas ao longo do dia intercalas com algumas aberturas de sol em grande parte do estado (regiões norte, nordeste, noroeste e leste serrano). Nas regiões sul, oeste serrano e Grande Vitória, variação de nebulosidade ao longo do dia, sem expectativa de chuva.
A sexta-feira tem previsão de chuvas esparsas ao longo do dia intercalas com algumas aberturas de sol em grande parte do estado (regiões norte, nordeste, noroeste e oeste serrano). Na região da Grande Vitória e o litoral da região sul, variação de nebulosidade ao longo do dia, sem expectativa de chuva. Nas demais áreas, previsão de pancadas de chuvas a partir da tarde.
O sábado segue de tempo instável em algumas áreas do estado. Nas regiões sul (exceto o litoral) e extremo sul da região serrana, há previsão de pancadas de chuva a partir da tarde. Nas demais áreas do estado, sol entre poucas nuvens, sem expectativa de chuva.
No domingo e segunda-feira, a passagem de um sistema frontal sobre o oceano deverá deixar o tempo instável em todo o Espírito Santo. Haverá condições para pancadas de chuva a partir da tarde em todas as regiões capixabas.
Para informações detalhadas de cada região, acesse o link http://hidrometeorologia.incaper.es.gov.br/?pagina=bol
Fonte: Incaper